Real Garcilaso 2 x 1 Cruzeiro – Racismo

Tempo de leitura: 6 minutos

tinga-cruzeiro-racismo-real-garcilaso-uma-cerveja-por-favor

Olá amigos.

Ontem o Cruzeiro perdeu para o Real Garcilaso por 2 x 1. Nós jogamos bem no primeiro tempo e caímos de rendimento no segundo. À partir dos 30 minutos já deu pra ver que o Cruzeiro não jogava com a mesma força do início da partida, quando conseguimos marcar nosso primeiro gol com Bruno Rodrigo.

Já no segundo tempo, o time caiu muito de rendimento e tentou controlar a partida. Mas, pelos erros de marcação em bolas paradas, não conseguimos manter a liderança no placar, levando dois gols bobos. E correr atrás de um resultado negativo após jogar 60 minutos de futebol na altitude é praticamente impossível. Acho que o Cruzeiro falhou nas duas jogadas de gol, elas poderiam ser evitadas com tranquilidade. No primeiro gol deles ninguém atrapalhou o jogador que fez o desvio da bola após a cobrança de escanteio e ninguém marcou o jogador que veio de trás para finalizar. Já no segundo, Fábio saiu mal e não alcançou a bola após cobrança de falta. Dedé se confundiu na marcação e deixou o adversário livre para marcar, com gol aberto. São gols que não se pode sofrer em Libertadores. Ainda mais jogando fora de casa e na altitude. Porque fica quase impossível correr atrás de outro gol.

Mas são erros perdoáveis nas condições de jogo. Na altitude tudo é diferente, por mais que as pessoas achem “frescura”. Se você não está acostumado a jogar na altitude, é impossível não sofrer com seus efeitos. Além da falta de ar, o cansaço, a bola também fica mais leve e mais rápida. Isso, certamente, atrapalhou no segundo gol. E também imagino que, sem as condições ideias de jogo, os atletas tendem a errar mais, deixar o adversário fazer coisas que não conseguiriam em outro lugar. É por isso que quando essas equipes jogam aqui no Mineirão, invariavelmente são goleadas. A altitude desempenha sim um grande papel nesse tipo de partida.

Mas está tudo bem, ainda temos cinco partidas para disputar nesse grupo e, provavelmente, só precisamos de 4 vitórias para a classificação em primeiro lugar. Então é apoiar o time dentro de casa para que vençamos todas as partidas, e depois buscarmos uma vitória em um dos dois jogos fora.

A situação mais triste da noite foi a vivida por Tinga. Cada vez que nosso camisa 7 pegava na bola, era agredido com cantos racistas. Ele entrou para substituir o cansado Ricardo Goulart, que não conseguiu repetir suas atuações – provavelmente por conta da altitude, pois nunca vi Goulart tão pregado, sem a movimentação característica.

Esse tipo de situação, o racismo no futebol, me deixa um pouco desacreditado com o esporte. Porque eu sei que nada vai ser feito para mudar esse preconceito. Porque eu sei que ninguém vai punir de forma exemplar essa equipe. Parece que o futebol é um mundo à parte, um mundo em que ofensas, agressões, crimes, assassinatos, são relevados. A lei não se aplica ao futebol. Uma torcida mata um garoto com foguetes (!?) e nada acontece. Outra torcida agride um jogador com sons racistas e nada acontece. Torcedores brigam e se matam em estádios e nada acontece.

O futebol é outro mundo, um mundo machista, homofóbico, violento, racista, em que tudo é perdoado, tudo é esquecido, porque um jogador vai acabar chutando uma bola para as redes e a comemoração vai silenciar o preconceito. E quando alguém se levanta para protestar contra algo, a resposta é sempre a mesma “ah, mas isso é provocação, é coisa de torcida, ninguém realmente quer ofender o outro. É só brincadeira.”

Mas não é brincadeira. Deu pra ver a dor e todo o sofrimento estampado no rosto de Tinga após a partida, quando deu uma entrevista à globo sobre a situação. Ele disse:

Eu queria não ganhar todos os títulos da minha carreira e ganhar o título contra o preconceito contra esses atos racistas. Trocaria por um mundo com igualdade entre todas as raças e  classes.

A gente tenta esquecer, competir em campo. Fico chateado com isso em pleno 2014, um país tão próximo da gente, mas infelizmente aconteceu. Já joguei longe, joguei vários anos na Alemanha e nunca vi isso na minha vida.

É impossível imaginar o que o jogador sente no meio de uma partida, quando está sendo ofendido, agredido por pessoas ruins, que conseguem, em pleno ano de 2014 – como disse Tinga – agir dessa forma repugnante. E não é só Tinga que sofre. Seus companheiros também sentem na pele. Dedé falou sobre o ocorrido:

O que deixa a gente indignado é um pais sul-americano com gestos racistas. O Tinga pega na bola, e eles (torcedores) começam a fazer som de macaco. Isso não existe e, da forma que eles jogaram aqui, catimbando, fazendo coisas para travar durante todo o jogo. Mas é o começo Libertadores, o time está confiante e sabe o que fazer no campeonato.

Eu sinto que não é o país, ou o ano, mas sim o esporte. O futebol está infestado de preconceituosos, e todos passam impunes, porque ninguém faz nada para combater esses atos. Num estádio de futebol todos se sentem livres para gritar qualquer coisa, para ofender, mostrar todo seu ódio contra outras pessoas. Porque nada acontece, ninguém é punido, preso. Se a mesma coisa ocorresse fora do estádio, nas ruas, provavelmente todos estariam na cadeia. Pior, ninguém faria nenhum gesto racista, porque nas ruas a lei é aplicada.

Acho que a gente pode mudar muita coisa. Por exemplo, acabarmos com os gritos homofóbicos. É engraçado que todos ficamos abismados com o racismo, o preconceito da torcida do Real Garcilaso, mas vamos voltar ao estádio nos próximos finais de semana e praticar nosso próprio preconceito contra outras pessoas. Pode parecer diferente, que é uma “brincadeira”, que é “provocação”, “coisa de torcida”, mas é exatamente a mesma coisa. É preconceito. Se não contra o jogador hétero, ali na sua frente, é preconceito contra o jogador gay, o torcedor gay, contra toda uma minoria que está do seu lado, à sua frente, e você finge não ver. Se você conseguiu ver o sofrimento no rosto do Tinga naquela partida, imagine o sofrimento de um jogador gay, que está sendo ofendido a cada partida. Lembro-me sempre do caso do jogador de vôlei, o Michael, que foi agredido pela torcida do Cruzeiro. O estádio inteiro o ofendendo. É a mesma coisa. E também o que se passa com Richarlyson em todos os clássicos. É algo absurdo.

Foi muito legal a forma como as pessoas se indignaram no caso do Tinga. Mostra que a gente está estranhando esse tipo de comportamento, que isso é anormal, e deveria sumir do futebol. E da sociedade, como um todo. É bem positivo. Mas, ao mesmo tempo, temos que olhar para o que fazemos, como tratamos os rivais, para nosso próprio preconceito. A gente não pode exigir um tipo de comportamento se não fazemos nossa parte do outro lado.

Foi um dia triste para o futebol, e espero que alguma coisa seja feita. Não me importo com a derrota, eles foram bem, usaram a altitude, fizeram seus gols, mas o comportamento da torcida me faz querer ver esse time eliminado da competição, ou tendo que jogar com portões fechados. Alguma coisa deve ser feita. Não podemos deixar que esse tipo de torcedor ache que esteja no seu direito, que possa ser preconceituoso e saber que nada vai acontecer.

Ah, e vi muita gente respondendo ao racismo com xenofobia. E isso é ainda mais grave. “Ah, esses peruanos são isso, esse povo é aquilo”. Não é pagando na mesma moeda que você vai estar certo, ou vai se mostrar superior. Na verdade é o contrário, você se mostra tão ruim quanto o racista. Você está sendo preconceituoso também. Então vamos medir mais as palavras, parar com esse tipo de coisa.

Isso já ficou gigante, com opinião demais, então vamos parar por aqui.

Até amanhã.

Não me siga

Michael Renzetti

Não sei nada sobre táticas, sobre jogadores, sobre times - bom, na verdade eu acho que não sei nada sobre futebol. Mas eu gosto de opinar.
Não me siga
  • Mike, seu comentário foi um dos mais bacanas que li até agora. Manifestações racistas, xenófobas, machistas e homofóbicas não são novidade para ninguém que acompanha futebol. Mas entre essas quatro, a FIFA só chama atenção para o racismo e a xenofobia. E imagino que só façam isso porque é significativo o número de jogadores negros e/ou estrangeiros jogando na Europa. Achei muito legal você chamar atenção para o machismo e a homofobia presente no grito de todas as torcidas.
    Eu já me peguei filosofando diversas vezes sobre o ódio que me desperta a provocação “Maria”, sabe? A ação-reação dos torcedores me diz que ser torcedor mulher é motivo de vergonha, ofensa, chacota para os homens da torcida*. Mulher não entende de futebol. E mulheres são menos torcedoras que os homens, porque não sabem nem conseguem jogar futebol. É como se fosse uma espécie de transgressão, ou anomalia, mulher gostar de torcer. Se for menina, tem que torcer com moderação – tipo assim, para acompanhar o marido, ou o pai- porque torcer loucamente é característica de macho. Tem um tio meu que fala com todo orgulho que o importante era os filhos homens serem atleticanos, a filha não fazia diferença (sorte da minha prima que pôde escolher).
    As questões que passam pela minha cabeça sobre esse assunto são infinitas – e olha que eu nem cheguei na questão da homofobia. Então, parabéns pelo texto instigante e por tocar nesse assunto. Acho que o tema tem potencial para muitos posts.
    Grande abraço!
    Maria Clara
    (Maria e cruzeirense com muito orgulho, com muito amor!)
    *Ou seja, chamar o rival de “Rosana” não ajuda em nada.

  • Parabéns pela reflexão!
    O esporte não é o “lugar” para a violência, sim violência! Todas essas formas de preconceito que você enumera no seu texto são formas de violência, a violência é o uso excessivo da força sobre o outro, essa força aplicada sobre o outro invade e destitui o outro da sua soberania, sua autonomia e sobretudo de sua dignidade. Gosto sempre de lembrar que o esporte desde a antiguidade clássica era usado para congregar, reunir e não para discriminar, separar as pessoas e os povos. Veja por exemplo as Olimpíadas, quando falamos do espírito Olímpico, falamos não exatamente de um estado de paz, mas de um respeito pelo outro e pela disputa justa e sadia no esporte. Quando se realizavam os jogos olímpicos na antiguidade todas as cidades gregas participavam e quem estava em guerra fazia trégua para participar dos jogos. Se recorrermos a literatura então, veremos, Aquiles instituindo jogos (disputas esportivas) para honrar o funeral de Pátroclo, isso se passa depois que Príamo vai escondido até a tenda de Aquiles para reclamar o corpo de seu filho Heitor, Aquiles ao ceder o corpo oferece trégua para que Heitor possa receber as honras fúnebres e institui os jogos para honrar a trégua. O que eu quero dizer é que o esporte não tem em sua essência, em sua causa de ser a semente da discórdia, ao contrário, tem a semente da união, da confraternização e do respeito.

    O esporte é o espaço privilegiado do mérito, daquele que se sai melhor, que se esforça. O esporte é o espaço para a superação dos limites para elevar a nossa humanidade.

    Também estou #FechadoComoTinga e nem preciso dizer que estou #FechadocomoCruzeiro!

  • Sempre adoro ler o que você escreve!