Sobre Piranhas, Bichas e Filhos da Puta

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Quem olha os últimos acontecimentos pode ter a impressão de que a gente tá vivendo um momento de lucidez dos torcedores de futebol.

Depois do episódio em que o Tinga foi vítima de racismo na Libertadores, a torcida do Atlético se mostrou solidária e manifestou seu apoio ao jogador do Cruzeiro. Muito legal a atitude.

Acontece que você nunca pode subestimar a babaquice no futebol.

Não demorou muito para que um ou outro atleticano apontasse o lamentável episódio em que a torcida do Cruzeiro hostilizou o jogador de Vôlei, Michael, em um jogo do Sada com gritos homofóbicos e a gente fosse obrigado a ler coisas “ah, mas você foi homofóbico antes, agora está sendo hipócrita e não adianta nada ser contra o racismo”.

volei futuro contra o preconceito

Alexandre Arruda/Divulgação

Sim. Os dois episódios são tristes e mostram toda a capacidade de imbecilidade de torcedores de futebol. A rivalidade (sempre ela) levou a uma disputa sobre qual time era menos preconceituoso que se limitava, basicamente, a apontar a babaquice da outra torcida e ignorar a própria.

A impressão que fica é que ninguém está ligando se uma pessoa é vítima de racismo, homofobia ou qualquer outra espécie de preconceito, e o que importa mesmo é qual torcida é superior à outra em algum quesito, nem que seja no quesito ser menos babaca.

No clássico pela 4ª rodada do Brasileirão 2014 a gente pode, mais uma vez ver essa bela demonstração de pessoas sentando no próprio rabo para falar dos outros.

Sempre que Fábio pegava a bola para cobrar um tiro de meta a torcida do Atlético, que era a única no Independência (em razão de uma tremenda babaquice da torcida do Cruzeiro, vale dizer) gritava em alto e bom som: “ooooooooooo bicha”. Não foi a primeira vez que fizeram isso.

Apesar de o narrador da partida dizer que o grito da torcida atleticana não podia ser reproduzido por que se trata de um palavrão, como torcedor, não me ofende o termo “bicha”. Pelo contrário, eu fico apenas triste por saber que tem gente que ainda não entende que ninguém é melhor ou pior que o outro em razão de orientação sexual. Se você leva a sério a palavra bicha e derivados como xingamento ou palavrão, você também está sendo homofóbico.

O Fábio não é gay, e quando usam “bicha” como ofensa, só fica evidente o quanto ser homossexual é considerado uma coisa inferior pelos torcedores. E olha que é bem provável que alguns dos torcedores que gritavam não se considerem homofóbicos, mas apenas não reflitam sobre isso e gritem junto com os outros por estarem acostumados a viver em uma sociedade que considera homossexualidade uma ofensa. Sociedade esta que é a mesma em que, veja bem, algumas pessoas não consideram que é racismo chamar alguém de macaco, desde que você faça isso ~de brincadeira~ (abraços, Danilo Gentilli).

A torcida do Cruzeiro não teve a menor dificuldade em ver a babaquice na atitude da torcida do Atlético. Durante o jogo, muita gente se manifestou sobre o quanto era ridículo e preconceituoso o grito do rival para o Fábio.

Então vem o segundo tempo, em que a bandeirinha Fernanda Colombo comete um erro absurdo contra o Cruzeiro, marcando um impedimento que não existiu por inacreditáveis 3m26cm. Um erro esdrúxulo que deveria fazer a moça ficar um tempo trabalhando em jogos da série B e C, que é o que normalmente acontece quando árbitros de futebol cometem erros toscos na série A.

bandeirinha

Bandeirinha Fernanda Colombo (Foto: Reuters)

Os torcedores do Cruzeiro (com razão) ficaram indignados, e aproveitaram para comprovar que, se tem uma coisa no futebol que supera a barreira da rivalidade, essa coisa é a babaquice.

Nas mesmas redes sociais em que, há menos de 90 minutos, os torcedores do Cruzeiro estavam indignados com os gritos homofóbicos da torcida do Atlético, podiam ser lidos comentários extremamente machistas e igualmente preconceituosos.

Dentre as pérolas a gente pode ler desde o clássico “lugar de mulher é na cozinha” até “pra quem ela teve que dar pra chegar ali?”.

Isso tudo no mesmo jogo em que o Árbitro Héber Roberto Lopes deu um pênalti inexistente para o Atlético e deixou de marcar um pênalti para o Cruzeiro. Dois erros que mudaram completamente o destino do jogo e prejudicaram muito mais o Cruzeiro do que o erro da Fernanda. Assim, como a Bandeira, o árbitro também deveria passar um tempinho apitando jogos da série B e C.

Apesar de ser chamado de “ladrão” o Héber não foi mandado pra cozinha e nem foi questionada a sua capacidade para estar ali apitando o jogo do Cruzeiro. A impressão que temos é que se prefere muito mais um homem desonesto apitando do que uma mulher que não prove a sua competência a cada partida.

Nos dias que precederam o clássico era comum reportagens destacando a beleza de Fernanda. Após o jogo, Alexandre Mattos disse que, se a bandeira é bonita, tinha que posar pra playboy e não estar na arbitragem.

Quem vê essa declaração do diretor do Cruzeiro pode ter a impressão de que não é comum que erros aconteçam no futebol. Nem parece que o Cruzeiro foi prejudicado pela arbitragem em todas as rodadas do Brasileiro de 2014.

No jogo contra o São Paulo, uma falta inexistente gerou o gol de empate que custou dois pontos ao Cruzeiro e você aí que tá lendo provavelmente nem lembra o nome do juiz que cometeu o erro sem consultar o Google. Ninguém disse que ele não servia mais para o futebol e o não teve declaração de ninguém do Cruzeiro mandando ele fazer qualquer outra coisa.

Os próprios xingamentos que a gente costuma ouvir dos torcedores indignados com erros de arbitragem são sintomáticos. Quando uma mulher erra os gritos da arquibancada são de “vadia” e “piranha”, enquanto o xingamento para o árbitro, quando não é apenas de “ladrão” é também direcionado à uma mulher que, no caso, é a senhora mãe do juizão.

Para o futebol, mulheres são uma espécie de enfeite, e devem se limitar a aparecer nos famigerados concursos de “musa”.

Se você, mulher, trabalhar muito para fazer parte do que realmente interessa no futebol, talvez te deixem ser bandeira (árbitro principal você já está querendo demais) e, quando você chegar lá, esteja preparada para ouvir cantadas de jogadores, treinadores e torcedores e também para o fato de que o título de “musa” estará sempre estampado antes do seu nome nas reportagens pós-jogo, que se limitam a mostrar fotos suas em poses indiscretas clicadas por fotógrafos que ficarão o jogo inteiro buscando um ângulo da sua bunda enquanto você trabalha.

Esteja também consciente de que, sendo mulher, você não pode jamais errar, ao contrário de caras como, Simon, Márcio Rezende, Gaciba e Cia, hoje comentaristas de arbitragem, que encerraram a carreira quando quiseram e hoje recebem para falar na TV sobre os erros e acertos dos árbitros e bandeiras, enquanto os vários erros que cometeram parecem ter sido esquecidos.

  • Olívia

    Fiquei fã da sua lucidez! Ótimo texto.

  • Por isso que o Nilton naõ deixou a mulher dele ser bandeira, pra não ouvir esse tipo de coisa.
    Realmente, desde sempre, a mulher é um enfeite no futebol.