Não foram os três volantes, o Cruzeiro perdeu para os erros individuais (e para o cansaço)

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Olá amigos, estamos aqui já falhando miseravelmente em escrever todos os dias, mas pelo menos temos algumas observações sobre as últimas partidas.

O jogo contra o Huracán é um para se lembrar para sempre. Eu sei que você gostaria de esquecer, de viver sua vida sem esse resultado ruim, sem as zoações dos rivais, mas essa derrota é importante para demonstrar que um time de futebol não pode ser forçado a fazer duas partidas em 48 horas. Que isso gera consequências físicas quer você queira ou não.

E o pior, estamos cansados por disputar uma semifinal de campeonato mineiro. Sério que só eu vejo a ironia disso? Perdemos um jogo muito importante causado em parte pelo cansaço de disputar uma partida inútil, de um campeonato sem valor algum, que só serve para gerar crise no time que não vence.

Eu sei que tem muita gente que não acredita no cansaço dos jogadores, que vê isso como uma desculpa esfarrapada para qualquer derrota, mesmo com todos os jogadores, técnico, e médicos dizendo o contrário. Esse tipo de pessoa não quer acreditar no que todo mundo está dizendo, no que estudos comprovam, não querem acreditar na fisiologia humana. E é por isso que eu não levo à sério. Falou que cansaço é desculpa eu trato como se tivesse defendendo ditadura militar.

Eu prefiro olhar para todo o contexto e entender a derrota do Cruzeiro ao invés de xingar todo mundo e falar que o time é horroroso, que falta vontade ou raça.

O Paulo André, um dos melhores jogadores da equipe durante toda a temporada, não pode, de uma hora pra outra, ter virado o pior jogador do mundo. Ok, ele estava muito mal. Lento, entregou bolas absurdas e deixou o adversário passar com extrema facilidade no segundo gol do Huracán. Mas ele também é um jogador de 31 anos que jogou 90 minutos no domingo. E jogou muito bem, por sinal.

Será que jogar cansado não aumenta a chance de um jogador cometer erros durante a partida? Antes desse jogo o Cruzeiro havia tomado apenas 8 gols em toda a temporada. E todos pelo campeonato mineiro. 16 jogos disputados e 8 gols sofridos. Meio gol por jogo. Números de uma grande defesa, talvez uma das melhores do país. E em uma partida, que coincidiu em ser com apenas dois dias de diferença para o clássico de domingo, levamos três gols, em três erros individuais. Pra mim o cansaço pesou muito.

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Mas vamos por partes. Tirando o cansaço de lado, as pessoas parecem ter se apegado ao esquema tático e Willian Farias para “explicar” a derrota. Disseram que o time não treina esse esquema (como se estivessem nos treinos todos os dias), que o Cruzeiro sempre perde assim (o que não é verdade, o Cruzeiro venceu diversos jogos com três volantes), e que deveria ter jogado com o esquema habitual.

Até concordo com a parte de jogar com o esquema habitual. Prefiro o time mais atacante, pois ficar com a bola e pressionar o adversário é uma boa forma de se defender. Por mim o time entraria com Gabriel Xavier no lugar de Alisson. Mas dizer que o time não treina três volantes ou não sabe jogar assim é uma brincadeira de mal gosto.

Sabe desde quando o Cruzeiro alterna entre o esquema de dois e o de três volantes? Desde 2013. O time joga com as duas formações desde que Marcelo Oliveira assumiu a equipe e as pessoas reclamam dos três volantes todo santo jogo. Quando Leandro Guerreiro jogava pelo Cruzeiro a equipe já mudava para três volantes. Inclusive um dos maiores choros da torcida são os três volantes no jogo de volta contra o Flamengo pela Copa do Brasil em 2013.

O time não perdeu pelos três volantes. Perdeu porque errou muito em lances capitais. E parte dessa culpa dos erros vai para o cansaço, pois uma das melhores defesas do Brasil no ano não pode ter ficado ruim do dia para a noite. Só se não conseguiram dormir à noite e nem treinar durante o dia. Aí sim pode ter ficado ruim mesmo.

O primeiro gol veio de uma besteira do Willians, que tentou dar uma caneta no adversário no meio do campo. A zaga até fez certo, deixando o adversário em impedimento, mas o bandeirinha conseguiu errar num lance absurdamente fácil e próximo a ele e o Huracán acabou marcando muito cedo seu primeiro gol, quando éramos melhores na partida.

O segundo gol veio de uma besteira do Paulo André, que deixou o adversário passar facilmente por ele dentro da área, com um simples corte para a direita, e cruzar para o atacante que, mesmo contra três defensores do Cruzeiro, chutou sozinho para o gol.

O terceiro gol saiu de uma falta em que Mena não conseguiu cabecear uma bola fraca e fácil, e Damião deixou seu marcador escapar (apesar de que foi agredido pelo rapaz).

Nenhum dos três lances tem nada a ver com esquema tático, nenhum dos três lances mostra que o Cruzeiro deveria jogar no 4-3-3, 4-4-2, -4-2-3-um-tapa-na-sua-cara. Mas o que todos os lances mostram é falta de atenção de jogadores que normalmente não falham em momentos cruciais. E se você acha que o cansaço não atrapalha nesses momentos, talvez você mereça uma ditadura militar. Bem no meio da sua fuça.

Uma coisa que devo dizer contra o Marcelo Oliveira é o fato dele não ter usado mais o elenco nessa partida. É claro que a equipe não poderia ser inteiramente reserva, mas talvez trocar Paulo André – que jogou os 90 minutos contra o Atlético – por Manoel seria uma boa. O zagueiro reserva poderia ter dado mais força física à equipe por estar descansado. E talvez ter iniciado com Gabriel Xavier no lugar de Henrique – que parecia um pouco deslocado na esquerda – balanceando um pouco mais a equipe e colocando outro jogador mais descansado em campo. Mas é fácil falar depois que aconteceu, mesmo com todos os problemas, cansaço, o time poderia ter sido um pouco mais atento e evitado dois dos três gols.

Marcelo Oliveira falou sobre isso:

Faltou atenção. Essas situações a gente conversa internamente. Estamos juntos, todos nós. Perdemos, eu tentei uma estratégia com três volantes pra marcar no início e aliviar para o Willians, que vinha de desgaste físico. Já joguei jogos muito piores aqui na Argentina, com times que não te deixavam sair. O que pesou foi a proximidade entre os dois jogos e o cansaço. A segunda bola ficava com eles, e eles tinham mais condição física de nos marcar.

Ele reclamou muito do cansaço:

A gente jogou há dois dias e chegou aqui na Argentina às 4 da manhã. Isso nos tirou o Alisson do jogo, um jogador importantíssimo. Outros jogadores terminaram o primeiro tempo extenuados.

Damião foi outro que bateu na tecla da maratona de jogos:

Temos um jogo em casa, na terça-feira, mais uma maratona, dois jogos seguidos, coisa desumana, mas, se a gente reclama, falam que é corpo mole, que o jogador não aguenta. Eu quero ver os outros jogarem nesse ritmo que estamos para ver se aguentam.

Chega a ser absurdo ver treinador e jogador reclamando de cansaço com três meses de futebol no ano. É um calendário muito falho, que prioriza televisão a regras básicas, como as 60 horas de descanso entre uma partida e outra, e faz com que times se atrapalhem no campeonato mais importante do primeiro semestre por ter que disputar torneios regionais medíocres, que não contribuem em nada para o futebol nacional. Até colocaria “gol da alemanha”  ou “7 x 1 foi pouco” no final desse texto se não achasse brega e bobo.

Até a próxima.

  • além do cansaço e por conta disso a dificuldade de marcar, o Huracán tocou muito bem a bola, pouco erraram durante os noventa minutos. o marcelo poderia ter colocado alguns reservas que estão descansados no primeiro tempo pra segurar o adversário, e no segundo colocar os titulares

  • E infelizmente essas situações vão continuar enquanto clubismo e favorecimentos acontecerem. É triste ver um futebol sendo descaracterizado porque o jogador não tinha condição física de disputar uma bola ou uma corrida com o adversário.
    Engraçado que os mesmos que reclamam que não existe cansaço, são os que se vão um dia na academia e faltam o resto da semana porque não consegue andar.
    Todo trabalho tem seu desgaste e suas dificuldades, mas cansaço por desrespeito à regras não deveria ser uma delas.