Nós somos trouxas… somos Cruzeiro ♫♫

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Dizem que somos trouxas loucos da cabeça e certamente: somos.

Amor demais é loucura e claro, ele é cego. Em 2013 e 2014 vivíamos um ápice desse amor. Estávamos cegos e aplaudíamos renda, discutíamos quem ganhava mais e tinha churrascos desde as 11 da manhã na porta do estádio.

Lembram-se do primeiro jogo do Novo Mineirão? O Cruzeiro ganhou por 2×1 com um gol de Dagoberto de cabeça. Renda Bruta: R$ 3.677.635,00. Pra comemorar a felicidade, a torcida do Cruzeiro ainda cantou “Atleticano esperto, comprou ingresso pra pagar o Dagoberto” naquele clássico que seria o último com duas torcidas meio a meio no Mineirão. Sim, éramos 50%. De espertos que somos, também pagamos o Dagoberto e rimos também da nossa cara.

Trouxas que somos. Trouxas que ainda continuaríamos ser.

Trouxas felizes, claro. Não reclamo, nem tinha motivo pra reclamar. É quando o custo benefício, mesmo alto, vale a pena.

O Cruzeiro, por dois anos seguidos, manteve a melhor média de público do Brasil e obteve a maior renda bruta nesse tempo. Contando todas as competições (inclusive estadual), apresentou uma média de 28.111 pagantes em 60 jogos no Mineirão com renda bruta total de R$ 87.944.990,15*.

28.111 pessoas é praticamente um Independência e meio. R$ 87.944.990,15 são cerca de 110 mil salários mínimos.

Para se ter a noção do montante que isso representa, se fossem as mesmas 28.111 pessoas em todos os jogos, seria R$ 3.128,50 saindo do bolso de cada um pra ver 11 pessoas correndo atrás da bola. Quase 4 salários mínimos.

Falo de renda bruta porque não quero saber o que o clube ganhou, mas o que a torcida gastou.

10482326_320041418181007_6435705007299292061_nA torcida não tem patrocínio, não pode expor sua marca, não pode acumular dívida, muito menos refinanciar em 20 anos. Isso é amor (ou trouxisse). Ainda pagamos gasolina, estacionamento, a cerveja, a carne. Demoramos duas horas em engarrafamentos, perdemos horas preciosas por opção, até leitoa assaram de madrugada em frente ao Mineirão a espera de um jogo que seria as 16 horas!

Não reclamávamos. Tudo valia a pena, por mais besta e trouxas que os outros nos achavam. O amor e a felicidade nos deixavam anestesiados.

Quando colocamos tudo no papel, vemos que a loucura de hoje não vale a pena. Entregamos parte da nossa vida pra quem deveria saber gerenciar apenas pra nossa felicidade. O tal do ópio moderno.

O que se vê hoje não é culpa da torcida que não comparece, não é porque somos “modinhas”, mas porque tem um mundo que gira fora do estádio. Nossa vida, nossa família, nosso trabalho.

Como aquele carrossel que girava e ríamos sem parar, mas quando a brincadeira acabou, não era tantas luzes assim. Era um momento. Nosso imaginário capital de giro não fazia mais o carrossel girar.

Eu espero e sei que um dia o carrossel voltará a girar, mas até lá, não vale mais a pena.

Mas sou sócia desde fevereiro de 2012, paguei 45, 80, 150, hoje pago 120 reais por mês e ainda vou a campo. De trouxa que sou.

Não é o Cruzeiro que está pagando agora pelos dois títulos que teve, Dr. Gilvan. É a torcida.

Luciana Bois

*A renda bruta ainda não é o que o torcedor gasta. O clube lança os valores do sócio fixo como mínimos no borderô. Olhando o balanço divulgado pelo clube, o item “Bilheteria e Premiações” de 2013 e 2014 dão, somados, R$ 149.501.032,40. Fazendo as contas por alto, contando que a premiação foi cerca de 35 milhões, cada um dos 28.111 pagantes pagaram R$ 5.318,24……..

Luciana Bois

★★★★ Uma maria que possui a estranha mania de ter fé na vida. ;D
  • Pierre

    Que texto, Luciana! perfeito… Quero compartilha-lo ( com os seus créditos, claro!) , posso?

  • Muito bom esse texto, tinha que chegar até o Gilvan.

  • Rodrigo Andrade

    Excelente. E que bom que esse tema do preço absurdo que o Cruzeiro cobra começa a ser discutido com mais força. Vivemos um eldorado de dois anos em que muita coisa foi empurrada para debaixo do tapete. Exatamente esse carrossel que você descreve tão bem. Que pena que precisou chegar um tempo mais sombrio para a gente começar a refletir sobre isso. Mas antes tarde do que nunca. É hora de exigir mais transparência, saber o que realmente está acontecendo. Por que arrecadamos tanto dinheiro e continuamos com rombo? De onde vem esse rombo? Quem foi o causador? Por que um ingresso tão caro? Para onde está indo todo esse dinheiro que você enumerou?

    Esses dois anos do eldorado, ou do carrossel, cegaram nossa torcida. Em alguns grupos de discussões vi muita gente defender que o Cruzeiro era uma instituição privada e não precisava dar conta do dinheiro. Hoje tá aí o resultado. Tudo muito nebuloso. Tá na hora de botar o azul no branco.