Quem é este teu povo

Tempo de leitura: 5 minutos

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Esta é a Marcilena com seu filho Matheus no colo. Depois de anos sem ver o Cruzeiro jogar, ontem ela foi com a família toda ao Mineirão. Talvez não tenha saído satisfeita com o resultado, mas espero que sinceramente tenham ficado felizes.

Já viram que no segundo seguinte ao gol, você só grita abestadamente e abraça qualquer um que tiver por perto? Não importa sexo, raça, idade, tamanho… nem o adversário! É aquele sentimento exclusivo, mas compartilhado… só nosso. Todos viramos um só povo. A Marcilena tinha tempos que não tinha mais essa sensação no estádio e ontem – espero – que tenha aproveitado muito.

A Família - fotos do Elmo Alves

A Família – fotos do Elmo Alves

A Marcilena, o Fabiano e o Matheus, ainda bebê, são os personagens principais de uma foto histórica, singela e a que eterniza tantos momentos no futebol, como aquele segundo seguinte ao gol que ninguém entende o porque que o futebol valha a pena.

Com essa discussão – boba, diga-se de passagem – sobre qual era o time do povo, utilizaram a belíssima foto do Elmo Alves para retratar “qual era o time do povo”. Mas me lembrava de uma reportagem que vi em 2014 onde a família dizia que não tinham voltado ao Mineirão depois da reforma pra ver o Cruzeiro jogar por diversos fatores.

Então quis arrumar um pouco essa falha do tempo. Sei que o futebol encareceu, que temos contas a pagar, que temos escolhas a fazer e muitas vezes nos afastamos das melhores coisas da vida. Mas com eles, se estava ao meu alcance, valia a pena tentar que eles vivessem um pouquinho mais da atmosfera do Mineirão que tanto amo.

Conversei terça de manhã com o Bruno Vicintin, o qual vi pessoalmente apenas uma vez na vida, e ele sem nem questionar me enviou a mensagem “Eu dou os ingressos para eles para quarta, você entrega?”.

Não, eu não os conhecia. Eram pra mim apenas personagens de uma das fotos mais lindas que já vi na vida.

Procurei o Elmo Alves pelo Facebook, o fotógrafo que precisou de nem um segundo pra reparar que aquela foto seria eterna, e ele me passou o endereço na rede social da Marcilena. Mandei pra ela a mensagem oferecendo os ingressos, explicando que vi na reportagem que eles não tinham voltado ao Mineirão e ela me respondeu “você tá falando sério?”. Sim, talvez eu seja meio louca, mas era sério.

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Matheus, por Lucas Bois

A resposta seguinte dela foi “muito obrigada, queremos sim” e ela nem me conhecia! E agradeceu outras vezes “de coração”, repetiu.

Mas tinha um problema que ela me mandou na terça já de noite. Como eram de uma cidade da região metropolitana e o horário do jogo é ruim pra voltar, ainda mais com crianças, precisavam de carona pra vir e apenas o cunhado poderia trazê-los.

Eu já não sabia se conseguiria mais um ingresso com o Bruno. Então apareceu o Phellippe.

Também não o conheço pessoalmente, apenas por Twitter. O vi oferecendo seu sócio para o jogo e mandei mensagem explicando e pedindo o cartão. Prontamente ele ofereceu.

Mas ainda tinha o Bruno e, depois de resolver com o Phellippe, fui ter coragem de ser um pouco mais cara de pau com o Bruno. Deu certo.

Chegou a quarta do jogo. Mas surgiu uma outra questão – talvez essa eu tenha inventado – como iria registrá-los se não ficaria no mesmo setor que eles? Eu sou sócia e meu irmão Lucas usa o sócio do Paulo, meu amigo que não se encontra na cidade e deixou o cartão em minha responsabilidade. O Lucas, que fez pós em Fotografia sendo um dos seus professores justamente o Elmo Alves, poderia tirar uma boa foto deles, mas não tinha como trocar de setor para isso.

Fabiano e o filho mais novo no colo ontem, por Lucas Bois

Fabiano e o filho mais novo no colo ontem, por Lucas Bois

Então entrou em cena a Minas Arena. Achei um e-mail no site deles e os escrevi a história. Era 02:46 da madrugada de quarta. E quase 9 horas depois, o Vitor, da Minas Arena, me mandou um e-mail e o Rivelle ligou dizendo que cederia uma credencial ao Lucas.

Tudo certo para o jogo, mas não tinha um celular para falar com a Marcilena e ela não respondia minhas mensagens desde terça. Não tinha mais certeza de nada. As 19:30 ela respondeu com um número de seu cunhado e dizia que já estava a caminho.

21:30, meia hora para o jogo, horário e local do encontro. Eles não estavam e não atendiam o celular.

4 minutos depois recebi a ligação. Estavam na outra entrada do Mineirão.

Fui caminhando para a entrada Sul com o Augusto e com o Parrera pra não ir sozinha e encontrei a família anônima, porém mais famosa que imaginam.

Salve as apresentações e fotos, passamos da revista. Enquanto andávamos na esplanada ouvindo uma música ambiente que tocava, o cunhado Kareca (só fiquei sabendo do apelido) disse “parece que estou entrando em campo pela Champions com essa música neste lugar”. Todos estavam muito felizes, inclusive quem vos escreve. O Matheus, aquele bebê no colo, mas agora andando com suas pernas depois de 7 anos, olhava tudo de mão dada com o pai._MG_0662

Despedi e me encaminhei para meu portão. Não os vi mais, mas o Lucas conseguiu registrar.

O Cruzeiro empatou, mas teve dois gols para aquele segundo ser mais uma vez sentido.

Não importa a camisa, o orçamento, a reforma, o tempo. O teu povo tem os Brunos, Elmos, Phellippes, Lucas, Paulos, Vitor, Rivelle, Augusto, Parreras, Marcilenas, Fabianos e Matheus que se completam sem saber o porquê, fazem pelo outro sem entender o porquê. Esse é teu povo, time! Esse é teu povo, futebol!

Não é questão de história, explicação racional, time A ou time B. Vem daquele segundo.

Do coração. De coração.

Luciana Bois

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Luciana Bois

★★★★ Uma maria que possui a estranha mania de ter fé na vida. ;D
  • Marconi Amaral

    Parabéns pela iniciativa. Muito emocionante.

  • Kleber Silva

    Emocionante, e muito bem narrado, com belas palavras… Parabéns!!!

  • Prezada Luciana Bois. Parabéns pela iniciativa. Fiquei emocionado com sua atitude. Gostaria de te agradecer do fundo do coração pelo que fez. Faço parte da TFC e da Resistência Azul Estrelada, sou historiador e também tenho um blog sobre o Cruzeiro. http://www.cruzeiraodopovao.blogspot.com.br
    Se tiver como um dia te darei um presente como homenagem a sua atitude.
    Parabéns, fiquei emocionado.

    • Olá Geovano. Eu vou a todos os jogos, quando quiser me encontrar é só falar que estarei lá. 😉

  • Alex Serafim

    Parabéns…
    Isto sim é gesto de fraternidade…