Santo machismo de cada dia

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Acompanho o Cruzeiro desde que me entendo por gente. Sou de 91, mas meu primeiro ídolo foi o Palhinha. Não sei quando começou, apenas sei que começou.

Custei a ir pela primeira vez ao estádio. Depois de muito insistir, fiz meu pai me levar naquele Cruzeiro 2 x 2 Coritiba em 2003. Meu irmão podia ir antes, mas eu, por ser menina, não podia. Meu primo da mesma idade entrava de mãos dadas com os jogadores e eu… de jeito nenhum.

“Futebol é muito perigoso para meninas”, mas jogava no time da escola.

Tem outras folhas pro lado... desisti em 2013.Em 2007, quando fiz 16 anos, comecei a ir ao Mineirão com frequência. Muitas vezes sozinha, ou acompanhada pelo meu amigo Gabão. Anotava todas as vezes que ía na minha agenda. No início do ano seguinte comecei a fazer estágio e já podia pagar pelos meus ingressos. Meu primeiro salário foi revestido no que eu sempre queria, mas meus pais viam que era um absurdo gastar dinheiro assim, mas comprei minha primeira camisa oficial do Cruzeiro.

Em 2010 comecei a me aventurar e fui escrever sobre o Cruzeiro no Squadra. Deu certo. Era o que mais gostava. Acabei parando no blog do torcedor do GloboEsporte.com.  Com 20 anos, em outubro de 2011, entrei para um emprego público. Então pude arcar com meu próprio ingresso. Virei sócia logo que abriu vaga no programa do Cruzeiro em março de 2012.

Nesse mesmo ano fiz minha primeira viagem pra ver o Cruzeiro jogar. Fui sozinha de ônibus da rodoviária para o Rio. Encontrei lá minha amiga Fernanda. E fomos a São Januário ver o Cruzeiro ganhar do Vasco por 3×1. Um homem de uma organizada, não acreditando que saímos de BH para ver o Cruzeiro jogar, nos disse: “vou ficar ao lado de vocês pra ver se vocês entendem de futebol mesmo”.

Depois disso foram títulos, mais viagens, inclusive para fora do país, e muito mais amor ao Cruzeiro. Desde março de 2012, faltei a apenas 12 jogos, mesmo fazendo faculdade de noite. Mas hoje eu realmente cansei. Não é fácil fazer isso tudo apenas por amor. Você ser mulher e se aventurar nesse campo é passar por coisas inimagináveis. Dizem que é exagero, que não tem tanta frequência, “não são todos”. Mas existe e muito.

Não foram poucos comentários machistas que escutei e escuto. Parecia que chegava numa etapa aonde não tinham mais argumentos e concluíam que “ela é mal comida” e, se fosse mais cheinha, certeza que concluiriam com “você é gorda”. Eu me julgo tranquila e poucas vezes rendi com o que lia. Deixem que falem.

No GloboEsporte, onde a exposição é grande, foram diversos comentários “pare de escrever sobre o Cruzeiro e vá pilotar fogão”, no Cerveja foram alguns também, no Squadra outros e no Twitter: sempre.

Minha mãe odeia que eu esteja aqui, por estar sujeita a isso. Não é só de torcida organizada ou de torcedor rival. É de qualquer um, inclusive de outras mulheres. Todos os livros do Cruzeiro que leio, todos os jogos que vou, todas as campanhas que fazem… a mulher nunca é tratada como igual. Servimos, para muitos, apenas para sermos as musas.

Nunca escrevi disso diretamente porque sempre achei que não valia a pena. Porém esse ano em um processo envolvendo o Twitter, um advogado me orientou que deveria processar sim quem fizesse esses comentários machistas. Se ninguém um dia o fizer, vão achar que sempre é de direito. Não sei se vale a pena gastar dinheiro ou tempo com isso, mas hoje realmente conversei com dois advogados a respeito. Não dá mais. Alguém um dia tem que fazer algo.

Não estou aqui para expor um corpo bonito, ou para falar de futebol pra interagir com os homens, ou conquistar jogadores. Não quero ser influente, não quero ter meus “contatos”, nem quero provar nada a ninguém. Não sou de nenhuma torcida organizada. Não quero ser melhor nem pior que ninguém. Apenas falar de futebol. Apenas ser torcedora.

Segue abaixo algum desses comentários. A grande maioria eu deletei e nem me lembro mais.

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Luciana Bois

Luciana Bois

★★★★ Uma maria que possui a estranha mania de ter fé na vida. ;D
  • Isso aí, lute pelos seus direitos. Fico imaginando como esses caras tratam namoradas/esposas. Triste também é ter que ver esses mesmos caras rebatendo pseudohistoriadores da lenda #cruzeirofascista sendo misógino e subindo a tag #cruzeirodopovo. Santa coerência!

  • Mateus Henrique

    Só quer falar de futebol, mas fica criando coisa onde nao tem. Agora fica pagando de santa ai

  • Penha

    Isso mesmo garota, vai a luta mesmo, frequento o mineirão ha mais de 20 anos e sei como é difícil ser mulher e torcedora ! Abraço

  • Augusto Palmeira

    bando de idiota lu! Continue indo e torcendo, vc vale mais que todos eles 😉

  • Barbara

    Luciana,

    Siga em frente com as suas paixões, não desanime por causa de críticas descabidas.
    Continue escrevendo e participando.

    Aos que insinuam que a Luciana está querendo passar por santa, observe que ela tem maturidade para expor sua opinião e ouvir críticas, desde que sejam respeitosas.

    Me respondam se você discorda de uma pessoa vc precisa chama-la de puta? Mal comida? E outras ofensas.

    Sinto muito mas acho que precisamos aprender a conversar né?

  • Priscila

    Total apoio, Luciana. Ficar em silêncio é contribuir para que você e outras sejam caladas por outros. Lute sempre, pois não passarão.

  • Gleidson

    Machismo no futebol, só mostra o quanto nossa sociedade e atrasada e burra intelectualmente. No lugar de evoluir nós involuímos … complicado…

  • camillamc10@gmail.com

    Todo apoio pra vc, Luciana. Como jornalista aposentada e torcedora de arquibancada, sei como é sofrido e desanimador passar pelo o que vc está passando.