Brinde ao nosso pior público!

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Nunca um estádio vazio foi tão importante. Nem 8.000 pessoas, mas o suficiente. Público bem diferente dos 22.075 de média que o Cruzeiro teve nesse campeonato brasileiro, mas certamente: o mais marcante.

Dia 30 de agosto de 2015. Eu e meu irmão, mesmo após uma viagem desgastante e atrasados, decidimos ir ao jogo. O atraso era tanto, que fez com que saíssemos de casa as 18:40, fato que me fez assistir ao início do jogo ainda pela TV.

20150830_2025287 km de distância de casa, estacionar na rua e andar até o estádio. Ninguém se movimentava. Não havia foguetório, ninguém bebia no Peixe. Estava escuro e um clima frio. Logo ali à frente o Mineirão vazio, como não era de costume, mas quase se acostumando.

40 minutos do primeiro tempo. Demos a volta na esplanada para entrar pelo portão C. Passávamos ao lado das lojas e saiu um grito de dentro do campo. Mas era de raiva.

Fui à loja do sócio ver pela TV. Gol, mas do adversário. Ricardo Oliveira num belo chute e o Fábio não aguentou. Assistimos ali do lado de fora junto aos funcionários do Cruzeiro aquele replay. Todos putos, mas acima de tudo: desanimados. Esperamos ali o fim do primeiro tempo e só então entramos no estádio.

Fomos para o canto. Era um clima de desanimo. Nem xingar mais ninguém queria. Colocar quem em campo? Nem sabíamos mais o que deveria pedir. “Fora Luxa” de novo? Parecia que ninguém queria escutar.

Reparei uma senhora sozinha a minha frente. Estava bem desanimada, mas com um terço na mão. Tirou a novena do Padre Eustáquio e começou a rezar. Eu e meu irmão reparamos e rimos, não do ato dela, mas do ponto que chegamos. Era um riso de desespero mesmo.20150830_193036

Começou o segundo tempo. A torcida mal cantava. Era triste ver aquele time em campo… não tinha nenhuma organização, não sabiam o que estavam fazendo em campo e nós  nem sabíamos mais do que poderia reclamar.

Lá pros 20 minutos do segundo tempo surgiu o grito do “Zêro” que eu vi sendo puxado por uma organizada. A torcida mal acompanhava, mas o povão era pouco. Se a organizava cantava, aquele estádio vazio ecoava o canto mais forte ainda. Não eram as pessoas, mas o cimento. Puxavam mais forte e agora o povo ia. E fomos.

Cada erro de passe, cada jogada mal feita, cada pressão sofrida era combustível para cantar mais alto. Eu já não aguentava ficar onde estava e saí pulando de um lado para o outro entre as cadeiras. Eu tinha vontade de chorar, mas guardei as forças apenas para a voz.

A senhora que antes rezava, também cantava ainda sentada em seu lugar com o terço na mão. O jogo mal importava. Era um grito de desespero. Quando as vozes cansavam, eles mudavam a batida e nossas palmas nos sustentavam. A cada lance eu descobria que minha voz poderia sair mais alta. Um grito de dor, mas de sincera paixão. Não era apenas “zêro” que saía da nossa boca, mas principalmente um “por favor, alguém nos socorra!”.

Perdemos os 3 pontos, não vi nem o gol da derrota e perdi metade do jogo, mas eu cantei, ou melhor: gritei. O “zêro” passou um recado melhor que “fora Luxa”. A diretoria viu que estávamos lá e, sim, importava. Brinde ao nosso pior público, mas melhor torcida!

Decidi relatar isso hoje como aniversário dos 6×1. Boas lembranças daquele jogo, mas péssimas daquela temporada. Assim como 2015 que terminamos em alta, mas foi por muito tempo no desespero. O detalhe da arquibancada fez a diferença.

Time grande cai sim e torcida nem sempre ganha jogo. Mas nós estaremos sempre ao seu lado para sempre provar o contrário.

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Luciana Bois

Luciana Bois

★★★★ Uma maria que possui a estranha mania de ter fé na vida. ;D
  • Que texto foda

  • Excelente texto. Esse foi o jogo da nossa virada, não apenas dentro de campo, mas também fora dele. A força da nossa torcida, que andava meio adormecida pela elitização, foi resgatada. Mas só uma correção: esse não foi nosso pior público no campeonato. Contra o Atlético-PR foram apenas 7.427 pagantes, enquanto contra o Santos foram 8.271.

    • Eu sei, mas explicar que foi o segundo pior público iria dar trabalho hahahahahhaha