Todos os times são do povo, mas nenhum realmente se importa com ele

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Olá amigos!

Infelizmente chegou o dia. Vou ter que falar sobre o time do povo. Eu tentei desviar do assunto tal qual Neo desviava das balas, mas não aguentei. Hoje uma bala me pegou. E nem foi o Atlético, com o ridículo banner na entrada da rodoviária. Mas sim a realização de que já estamos em 2016 e as pessoas ainda discutem esse assunto absurdo. 2016. 2000 +16 anos. Sério mesmo gente, já são 16 anos dentro dos anos 2000, vamos ter vergonha na cara.

Em primeiro lugar, tentar se provar como o time do povo através de propaganda e rede social é algo tão bobo que pra mim nem valia uma discussão. Sério mesmo, fiquei o tempo todo embasbacado pelo tamanho da discussão. Não entra na minha cabeça textos e discussões sérias sobre o assunto. Loucura total. Mas aconteceu, e não acaba. E agora, infelizmente, eu preciso falar mais besteira ainda sobre isso. A culpa é de vocês.

Em segundo lugar, todos os times são do povo. Pelo simples motivo de que todo mundo é povo, e se várias pessoas (que são povo) torcem por um time, esse time é o time desse povo. Só isso já deveria acabar com a discussão. Mas o negócio é mais maluco ainda. Porque, pelo que eu entendi, esse “povo” não quer dizer “as pessoas”, quer dizer “as pessoas pobres”. E aí, pra mim, fica bem esquisito. As pessoas querem provar que seu time tem uma origem humilde. Como se isso fosse melhor do que um time que surge a partir de classe média ou alta. Como se tudo fosse um belo filme hollywoodiano que mostra o time surgindo do nada e conquistando todas as glórias contra tudo e contra todos. Vamos combinar né gente, é um time de futebol, não existe nada disso. Os caras chutam uma bola por 90 minutos. Não é tão complicado assim fundar um time, seja rico ou pobre.

Pra mim (baseado em nada) o Atlético – por ser um time mais antigo – tinha a preferência da maioria das pessoas que “controlam” Belo Horizonte. Nunca vi tanto dono de negócio atleticano. E se você parar pra pensar bem é até normal. O time é mais antigo, as famílias mais tradicionais são atleticanas, então nada mais justo que essas pessoas, que cresceram junto com a cidade e a ajudaram a se desenvolver, torçam pelo time. E isso não é nenhum demérito. Tem muito pobre atleticano, tem muito classe média atleticano e tem muito rico atleticano. Igualzinho com os cruzeirenses. O Cruzeiro foi um time formado por trabalhadores italianos, se desenvolveu sendo o terceiro time da cidade até chegar ao primeiro lugar (sem clubismo, apenas olhando tamanho de torcida e títulos). E o time sempre teve torcedores pobres, de classe média, e ricos. Os dois são times do povo. De todos os povos. Eu realmente não entendi a discussão.

Mas tudo bem, vamos passar para o ponto que realmente importa. Apesar das duas equipes se dizerem “clubes do povo”, nenhum deles age em prol desse “povo” que tanto amam. Se eles se orgulham tanto das origens – aparentemente – humildes, por que expulsaram o público mais humilde dos estádios? Por que não existem mais setores populares nos estádios? Por que o preço inicial de ingressos para os jogos é de 30, 40 reais, um preço abusivo, mais caro que cinema, teatro, qualquer tipo de entretenimento, enquanto o salário mínimo do país não passa de 800 reais?

Para se ter uma ideia, de 2009 para 2013, o ingresso do sócio do futebol do Cruzeiro aumentou de 45 reais para 120. Um aumento de quase 200% em quatro anos, sob a desculpa de que o Mineirão havia se modernizado. Mas quem pagou a conta do Mineirão fomos nós (em conjunto com um contrato absurdo com a Minas Arena). E o grupinho do contra pode tentar espernear, falar que o futebol está mais caro e o escambau, mas não tem jeito de desmentir os números. E os números dizem que ingressos mais baratos levam mais pessoas, enchem os estádios e dão mais renda ao clube. A decisão de aumentar o ingresso não é por necessidade. É arbitrária e sem estudo, porque temos uma cultura em que precisamos explorar os outros a todo custo. E os clubes nos exploram enquanto ficamos defendendo quem foi mais humilde em sua fundação.

Se você ainda acha que não somos explorados pelos clubes, explique o aumento de ingressos em finais. Após torcermos e empurrarmos o time pelo campeonato inteiro, somos presenteados com ingressos iniciando em 200 reais para acompanhar a partida derradeira. Na final da Copa do Brasil tinha ingresso de até mil reais. E isso não empurra só os humildes para fora do estádio. Empurra os humildes, os de classe média, quase todo mundo. Quase o povo todo.

Os times brigam em campanhas publicitárias e redes sociais para representarem o povo, mas aos poucos, por aumentos abusivos em seus ingressos, tiram a maior parte do povo dos seus estádios.