Vejo na TV o que eles falam sobre o técnico não é sério…

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… o técnico no Brasil nunca é levado a sério. Ou é levado a sério até demais? É o que acho. Vem comigo.

Olá amigos.

Hoje foi um dia terrível na cruzeirosfera pela insistente especulação da demissão de Deivid. Sim, terrível. Não importa por que PRISMA você olhe essa notícia, ela é muito ruim. Se você gosta do Deivid e acha que ele precisa ter mais uma chance (a família dele e eu), é terrível porque o Cruzeiro provavelmente vai meter o pé na bunda dele e tirar o profissional recém-contratado e pouco testado do seu cargo. E se você não gosta do Deivid, não acha que ele vai funcionar, mas gosta do Cruzeiro, a notícia também é ruim porque o Cruzeiro vai ter perdido dois meses de trabalho. Talvez a notícia seja boa pra aqueles que não gostam de nada, só querem reclamar, falar que “avisaram”… mas não acho que exista esse tipo horrível de torcedor no Cruzeiro. Será que tem gente assim? risos

Mas não quero falar especificamente sobre Deivid hoje. Ele já deve ir embora mesmo, é gastar dedo e bytes com o leite derramado. Quero falar sobre a cultura geral de técnicos no Brasil. Eu acho que tem algo muito errado com nossa cultura futebolística NO QUE TANGE o tratamento aos técnicos. Sim, isso parece óbvio, mas você – sim, você – eu, e principalmente nossa belíssima imprensa anti-spotlight, nos esquecemos completamente do problema ao menor sinal de fumaça. Nós defendemos que o técnico precisa ter tempo, precisa ter tranquilidade, precisa de um maior equilíbrio para exercer sua profissão, mas no menor sinal de instabilidade já começamos a discussão sobre demissão. Nós estamos no primeiro dia de março, os técnicos tiveram mais ou menos um mês de trabalho, disputaram em média 8 partidas em 2016 e já temos discussões sobre a demissão de, pelo que acompanhei, quatro treinadores de times da série A. 20% dos técnicos da série A estão ameaçados. E nem começamos a disputar o brasileirão.

Marcelo Oliveira, maior CASE de como um treinador pode ir do céu ao inferno em menos de um ano, não deve durar muito mais tempo no Palmeiras, Deivid – como já é sabido – não deve ser bancado pela nossa diretoria pelo jeito “NO PASSADO” que Gilvan falou de seu trabalho, Roger – considerado grande herói da classificação do Grêmio à Libertadores – sofreu protestos com direito a pipoca jogada pelos seus torcedores, e Eduardo Baptista – o melhor caso desse início de ano – foi demitido pelo vice presidente, coisa que desagradou o presidente do clube que acabou demitindo o próprio vice-presidente e o diretor de futebol do clube. Agora eu não entendi por que Eduardo Baptista não foi recontratado, mas tudo bem, não dá pra entender dirigente de futebol.

Acho que esses quatro casos ilustram bem a loucura que está nosso futebol. Apesar de todos esses treinadores não estarem rendendo com seus times – sim, eu não sou louco, sei que o trabalho deles não está bom -, temos apenas um mês de trabalho no ano e a cobrança já é absurda. Treinadores já são demitidos, a imprensa discute e especula lista de substitutos, e o ano nem começou direito. Eu não deveria estar tendo que falar para vocês como isso tudo é um absurdo. Mas acho que muita gente não compreende, ou pelo menos não concorda comigo, no princípio de planejamento de uma equipe.

No MEU entendimento, quando uma equipe vai iniciar um novo ano, ela faz uma revisão do elenco, do técnico e de seus objetivos no ano vindouro. Vamos pegar o Cruzeiro como exemplo (lembrando que isso tudo é ficção, eu não sei de nada, estou EXTRAPOLANDO). Em Dezembro, com a saída de Mano Menezes, a diretoria teve que pensar em quem seria seu treinador para 2016. Provavelmente analisaram todas as opções disponíveis no mercado e decidiram que Deivid era a melhor opção no momento. Depois disso, o clube deve ter analisado o elenco, juntamente com o novo treinador, e decidido para quais posições deveriam contratar jogadores, baseando-se no dinheiro disponível em caixa. Além disso, devem ter pego as tabelas de todos os campeonatos que vão disputar em 2016 e feito uma projeção – como a “Planejada” do Rica Perrone, tão ADORADA por vocês – de onde poderiam chegar em cada uma delas, quem deveriam vencer, onde podiam perder pontos, tropeçar, etc. E com base nisso tudo poderiam analisar o desempenho da equipe durante o ano. Isso é um planejamento básico.

Lógico, deve ter um tanto de coisa que não coloquei, é muito mais complexo, variáveis, blá-blá-blá, mas isso é só uma ilustração para expor meu ponto. E meu ponto é: uma equipe séria, que fez o planejamento, se esforçou, contratou técnico, jogadores pedidos (ou pelo menos em conjunto) com o técnico, etc, não pode jogar tudo fora com base em apenas oito jogos. Não é razoável. Não faz sentido. Mas acontece toda hora. Acabou de acontecer no Fluminense, e provavelmente vai acontecer com Cruzeiro e Palmeiras. Três dos maiores clubes do país. Em 2016. Não gosto de usar muito essa piada, mas é por essas e outras que o 7 x 1 está aí.

Mas temos o argumento contrário. O argumento de como demitir esses treinadores, na verdade, é a coisa certa a se fazer. Mas eu não vou postar aqui, pois não sou trouxa de ficar criando argumento contra mim mesmo. Mentira, vou postar sim. O argumento é de que se o treinador não está indo bem, não vai conseguir cumprir o planejamento, tem problemas com a equipe, é melhor demitir o mais rápido possível para evitar grandes perdas, não ficar tão atrás dos adversários nas competições que estão por vir. E é um bom argumento, razoável, e funciona para alguns casos (como Luxemburgo em praticamente todos os times que passou após voltar do Real Madrid). Faz bastante sentido demitir um técnico que se provou incapaz, que não consegue manter o time num bom nível, que não está cumprindo o planejamento ou que tem problemas com seu elenco. Não sou contra nada disso.

Mas o grande problema que eu vejo é que nós não esperamos nem essa hora chegar. Nós demitimos os treinadores pensando que TALVEZ ele não vá funcionar, TALVEZ não vá cumprir o planejamento, TALVEZ não vá encontrar um padrão de jogo. Na base do achismo. Sem convicção. Sem provas. Nós temos tanto medo do fracasso que não damos tempo dos treinadores fracassarem. Ou sucederem. Nós vamos pulando de treinador em treinador, demissão em demissão, com medo de bancar alguém e não dar certo. Os dirigentes lavam suas mãos. É tudo culpa do treinador o tempo todo. E é essa cultura que precisa ser mudada.

Não é tudo culpa do treinador o tempo todo. O treinador não é a coisa mais importante de um clube. Ele é importante, não me leve a mal, mas não deveria ser mais importante que os jogadores. Ou que o clube. Nossos clubes precisam ser – e na minha visão já SÃO – menos dependentes dos treinadores. Fortes. Com profissionais próprios, que tenham voz e façam com que as equipes escaladas e levadas à campo pelo treinador tenham um DNA do clube, bem resolvido. Pegue, por exemplo, o Barcelona. É um clube que, independentemente do treinador, vai ter sempre uma equipe habilidosa, passadora, que gosta de dominar a partida, ter muita posse de bola. É o jeito deles. É o jeito que treinam os garotos da base, que buscam no mercado ao contratar jogadores, que buscam nos treinadores contratados e que sugerem (mais mandam do que sugerem) ao treinador que está no comando no momento. Se nosso foco fosse esse, de qualificar o clube, deixá-lo com uma estrutura forte, com a nossa cara, o treinador contratado seria apenas mais uma engrenagem na roda.

Acho que os maiores clubes do país tem isso. É um pouco desorganizado, acaba se perdendo às vezes, mas cada um tem seu estilo, suas tradições. Cruzeiro sempre foi um time rápido e rasteiro, como dizem, com um bom toque de bola, jogadores velozes, que vai pra frente, ataca, faz muitos gols. Santos sempre teve uma base forte, os meninos da vila. Grêmio sempre teve um time combativo, que preza pela raça. São Paulo sempre teve um jeito elegante de jogar. E assim vai… Você consegue traçar um perfil de nossos clubes. Se você olhar bem a história de cada um deles, vai perceber que esse estilo se repete, e está presente nas suas maiores conquistas. E que quando tentam mudar muito acaba não dando certo. Acho muito mais importante focar nessa estrutura do clube, amplificar isso, do que dar uma importância surreal ao treinador.

E o treinador brasileiro é bom. Não é essa tragédia toda que as pessoas dizem. É só uma aposta, não consigo comprovar (e acho que nunca vou conseguir) mas sou capaz de casar um bom dinheiro no argumento de que se mais trabalhos fossem mantidos durante os anos nós veríamos que a maioria dos treinadores fazem trabalhos bons. Eles não são burros. E nossos times tem seus estilos, são bem estruturados. Mas o problema é que ficamos o tempo todo com medo do fracasso. E não deixamos ninguém ter sucesso. Se o trabalho não está bom com oito jogos já temos a certeza de que o time vai cair, a diretoria precisa agir, tudo precisa mudar, DEMITE TODO MUNDO, A TRAGÉDIA ESTÁ CHEGANDO. Isso acontece com os VINTE clubes da série A. E os vinte da série B. E provavelmente com os da C e D, e até dos estaduais. Todo mundo vai cair. E precisa mudar. Antes do pior acontecer. Mesmo que bem provavelmente ele nunca aconteça.

É isso que precisamos mudar. Não temos que tentar prever o futuro o tempo todo. Não temos que ter medo o tempo todo. Temos que confiar mais nos clubes, termos estruturas melhores e tratarmos os treinadores como parte da engrenagem, ajudantes, e não como o salvador/vilão da história. Temos que cumprir o planejamento. Julgar com provas, com base nos resultados. Dando todo o tempo para o treinador mostrar até onde pode ir (ou não). Ou seja, esperar. Ter paciência. Eu só peço um ano. “Ah, mas vai deixar o time cair para a série B pra poder julgar técnico???”. Provavelmente não. São só quatro times que caem. Normalmente os pequenos e vindos da série B, pela péssima estrutura financeira que temos aqui. Mas se seu planejamento foi ruim, sua equipe não é boa o suficiente, talvez você caia mesmo. Mas acho que trocar de treinador ou não é o menor dos problemas. Às vezes trocar de treinador é até pior. Não está mais do que comprovado que times que mantém seu técnico por uma temporada inteira, ou mais, têm os melhores resultados no brasileirão? Acho que precisamos mudar. Não dá para ficar do mesmo jeito. Nosso futebol não está evoluindo. Na verdade, acho que está cada vez mais se afastando do topo. Não podemos deixar isso acontecer mais. E acho que uma parte importante disso é começar a pensar diferentemente sobre os técnicos de futebol.

Até amanhã.

Não me siga

Michael Renzetti

Não sei nada sobre táticas, sobre jogadores, sobre times - bom, na verdade eu acho que não sei nada sobre futebol. Mas eu gosto de opinar.
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  • igor

    Muito bom, só um detalhe pra mim: aqui no Brasil seria impossível vários técnicos fazerem trabalhos considerados bons. Talvez isso até passe pela mudança de ~cultura~ que você diz, mas enfim: são 12 clubes considerados grandes com praticamente o mesmo nível de exigência. Não importa se vc acabou de subir da B e seu craque é o Neilton ou o #Mittos gastou milhões em reforços: a exigência de brigar pela copa e tentar chegar no G4 é a mesma. Acho que isso atrapalha também a continuidade, não há um nivelamento realístico

    • É verdade, tem isso. Mas fico pensando que na verdade mesmo não temos 12 clubes brigando por títulos todo ano. A torcida pode querer, os comentaristas podem falar isso toda hora, mas no vamos ver mesmo são só 2 a cada ano. Talvez isso atrapalhe muito mesmo, porque temos a expectativa irreal de que todo ano podemos brigar por tudo, o que não é verdade.

      Mas uma coisa interessante de saber é que, se mantivéssemos os técnicos por várias temporadas, será que teríamos uma super briga de vários clubes pelo título? Acho que tem chance. E aí sim o campeonato brasileiro seria o “melhor campeonato do mundo”, como dizem.