Sebastianismo, convicção e teimosia: um resumo da nossa temporada até agora

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Não fale em crise, vamos também escrever sobre!

Se nós estamos perdidos, imagina quem está vendo do lado de fora? Essa semana estava ausente devido às minhas férias, foi então que recebi um tweet do flamenguista Jorge Murtinho (@jorgemurtinho) citando também a minha prima (@_ClaraBois) questionando o que estava acontecendo com o Cruzeiro. Ele é sempre ponderado e escreve para o republicapazeamor.com.br (aliás, ótimos textos!). Não era um tweet de ofensa, de zombaria ou de dó. Percebi que estávamos tão perdidos, que até quem estava de fora também estava perdido.

Ele enviou seu e-mail para que conversássemos por meio dele. Como estava só com meu celular, ficaria difícil a conversa, então a minha prima mandou um e-mail que ficou tão bom, que pedi a ela para que o compartilhasse aqui. Eis então:


Oi, Murtinho!

Que alegria receber uma mensagem sua. Espero que esteja tudo bem por aí!

Você sabe que a coisa está feia para o seu clube quando sonha que ele saiu da ZR por critérios de desempate. Pois o Cruzeiro desse último mês está me deixando esquizofrênica – no final de junho batemos o líder do campeonato, para na semana seguinte perdermos um jogo maluco em Chapecó e, dias depois, empatarmos outro quase ganho em pleno Mineirão. Daí vieram as duas derrotas seguidas e a humilhação de ver um jogador minúsculo xingar publicamente a instituição mais importante de Minas Gerais. Honestamente, o 17º lugar no Brasileirão é só a cereja do bolo mesmo.

A crise de hoje pode ser explicada por vários ângulos: planejamento equivocado no início do ano, lesões que semanalmente deixam jogadores importantes fora do time por quase um mês (sem contar os que estão lesionados a mais de um ano!!!!), problemas de caixa, momento de transição na gestão profissional do clube, imprensa local agourando o trabalho da comissão técnica estrangeira, ex-presidente tentando retomar o poder no clube… É um sem-fim de fatores que se misturam, vão influenciando um ao outro, e desaguam nesse pesadelo.

Vou me ater a um deles – a transição na gestão profissional do clube – para tentar explicar o que acontece com o Cruzeiro desse ano. Esse ângulo talvez seja o que enxergue a metade do copo “meio cheia” e o que me dá razões para acreditar que o time não cai. Sobrevivendo a 2016, poderemos ter até um bom 2017.

Como a maioria dos clubes brasileiros, o Cruzeiro é uma associação gerida por um conselho deliberativo conservador, vaidoso e pouco profissional. Quando o Zezé Perrella deixou o clube no final de 2011 – ano em que quase caímos para a série B – o time estava sem caixa, sem elenco, sem estádio e sem um diretor de futebol profissional. Assumiu a presidência Gilvan Tavares que, apesar de ter sido apoiado pelo ex-presidente, tentou se colocar como um gestor independente dos Perrella.

Tostão, Evaldo e Dirceu Lopes. Os sebastianistas cruzeirenses esperam ver esse time jogando junto novamente. | Fonte: Blog Futebol de Todos os Tempos

Tostão, Evaldo e Dirceu Lopes. Os sebastianistas cruzeirenses esperam ver esse time jogando junto novamente. | Fonte: Blog Futebol de Todos os Tempos

Sobre o Gilvan, pode-se dizer que, apesar de ser uma pessoa bem-intencionada, ele demonstrou ser um presidente centralizador ao ponto de parecer turrão em alguns momentos. Assim como os flamenguistas são sebastianistas à espera do retorno de Zico, os cruzeirenses esperamos o retorno do time de Tostão, Dirceu Lopes, Zé Carlos e cia. E Gilvan é um sebastianista cruzeirense convicto. O único problema é que se ele entender que Rafael Silva é Natal e Riascos é Evaldo, não há santo que o convença do contrário. Ambos foram contratados a “pedido especial do presidente”. O primeiro está emprestado ao Figueirense, o segundo nem vale a pena falar a respeito.

A personalidade centralista de Gilvan prejudicou o planejamento da temporada passada, por exemplo, quando o Cruzeiro ficou mais de sete meses sem diretor de futebol profissional, porque o presidente achou que este era um cargo desnecessário. Eu não vou enumerar todas as desgraças que foram contratadas no último ano, mas os exemplos acima dão uma ideia do nosso drama.

A coisa estava tão feia na segunda metade de 2015, que o presidente teve que admitir que precisava de ajuda. Foi então que começou a renovação na gestão do clube. Uma ala de conselheiros jovens assumiu a direção de setores do futebol profissional, um novo diretor de futebol foi contratado, e um plano estratégico foi posto em prática de maneira mais radical: os jovens formados na categoria de base do Cruzeiro deveriam ter prioridade no profissional. Mano Menezes foi o escolhido para comandar a nova comissão técnica.

Tudo parecia que ia bem até que Mano recebeu uma proposta para trabalhar na China e deixou o Cruzeiro no final da temporada. E foi aí o início do drama que vivemos nesse ano. Ao invés de contratar alguém experiente para substituir Mano, alguém que pudesse indicar jogadores experientes para equilibrar um time bastante jovem, a diretoria optou por efetivar Deivid, um jogador de futebol recém aposentado que ganhara status de auxiliar técnico permanente após a demissão de Luxemburgo.

É fácil criticar a escolha da diretoria agora, mas confesso que na época achei que a justificativa para efetivar Deivid fazia sentido. A diretoria partia do princípio que a figura do técnico é supervalorizada no Brasil (e é), e que não havia nenhum técnico com ideias novas e vencimentos razoáveis disponível no mercado. Deivid conhecia o elenco e o trabalho feito por Mano, e era querido entre jogadores. Além disso, aceitava trabalhar por menos de ¼ do salário do antigo técnico.

Outra aposta da diretoria foi reforçar o elenco com jogadores jovens (média de uns 23 anos), baratos (a maioria veio sem custo de transferência), desconhecidos do grande público, mas com experiência internacional e passagens pelas categorias de base das seleções de seus países. Resultado: uma barca de estrangeiros aportou na Toca. Se desse certo, o clube conseguiria uma margem de lucro enorme na janela de transferência. Aliás, essa é uma outra característica do sebastianismo cruzeirense, esperamos descobrir um novo Ramires, ou Ronaldo Fenômeno, a cada temporada.

O resto dessa história você está vendo. Deivid não deu certo, mais da metade dos novos contratados não reforçaram o elenco de fato, o time é jovem e emocionalmente instável. O trabalho do Paulo Bento tem mostrado que o elenco não é tão horrível assim, mas a instabilidade emocional atrapalha o time em momentos chave dos jogos. Sinceramente, acho que se o Paulo fosse o nosso técnico desde o início da temporada, estaríamos surpreendendo muita gente.

O que leva ao meu ponto do “copo meio cheio”. Muitos analistas falam da falta de convicção da diretoria do Cruzeiro, mas acho que é justamente o contrário. A diretoria acredita nas categorias de base do clube e no estilo ofensivo como característica principal do futebol cruzeirense. Com exceção de Celso Roth, todos os técnicos contratados integraram efetivamente os jogadores formados pela base e tentaram montar times insinuantes. E eu acho que foram justamente essas “obsessões” que prejudicaram o equilíbrio da composição do elenco nesse ano. Minha esperança é que a diretoria tenha aprendido com seus erros de estratégia – e parece que sim, vide a contratação recente de vários jogadores trintões – e que mantenha o trabalho do Paulo Bento no ano que vem.

A crise é feia sim. Mas, fora a humilhação de ter que lutar contra o rebaixamento, existe perspectiva de melhora. Sabe como é. Maria possui essa estranha mania de ter fé na vida.

Grande abraço!

Clara


Esquecemos de algo?

Luciana Bois

★★★★ Uma maria que possui a estranha mania de ter fé na vida. ;D
  • Luiz Bento Pereira

    OK, não esqueceu nada, foi perfeita em relatar ocorrências. Jornalismo clássico, puritano, mas… por favor alguma sugestão? Quem sabe nosso presidente salvador, lê aqui e consegue algum resultado. Eu sinceramente, a única vontade que eu tenho é de entrar na toca arrombando aqueles portões sacudir cada jogador individualmente e dizer a eles, “passes precisos”, mais rápidos e na direção do gol sempre. Ficar trançando bola pra lá e pra cá no meio de campo, de uma lateral a outra, não funciona, onde está o cara que resolve, que pega a bola alí e vai pra dentro do gol, chuta e marca?