Foto: Célio Apolinário

Na hora H, valeu a molecagem

Tempo de leitura: 8 minutos

Um dos ouros que meu pai guarda e tenho imenso carinho é uma revista da Placar de 1979 sobre o Cruzeiro, um editorial especial do Juca Kfuori com textos de Ricardo Vespucci e Sérgio Carvalho. Nele há crônicas sobre jogos inesquecíveis (até então), biografias sobre grandes craques e muitas fotos da época. Hoje completamos 40 anos da molecagem do Joãozinho que nos deu o primeiro título da conquista da América e gostaria de compartilhar com vocês uma crônica dessa revista. Não há versão digitalizada (já pesquisei no Google. RÁ!), então os convido a ler e se transportar para aquela época para entendermos o quanto é incalculável o valor da nossa história. Boa leitura!

Cruzeir: Raul, Nelinho, Morais, darci Menezes, Vanderlei, Piazza, Zé Carlos, Eduardo, Palhinha, Ronaldo e Joãozinho; River: Landaburu, Comelles, Artico, Lonardi, Urquiza, Sabella, Merlo, Alonso, González, Luque e Más. | Foto: Célio Apolinário

Cruzeiro: Raul, Nelinho, Morais, Darci Menezes, Vanderlei, Piazza, Zé Carlos, Eduardo, Palhinha, Ronaldo e Joãozinho; River: Landaburu, Comelles, Artico, Lonardi, Urquiza, Sabella, Merlo, Alonso, González, Luque e Más. | Foto: Célio Apolinário

Era a decisão da Libertadores contra o temível River Plate. Para vencê-la, o Cruzeiro precisou de categoria, garra e malandragem.

Aqui estão eles, em Santiago. Frios, alegres, falantes, preocupados com umas comprinhas. E é um dia muito importante para o Cruzeiro – o da decisão da Taça Libertadores da América. Aqui estão os experientes, os garotos. E o comando de Zezé Moreira. Raul, Piazza, Nelinho, Zé Carlos, Vanderlei, Palhinha, Jairzinho, Joãozinho… Jairzinho está completando seis meses de clube. Sua contratação teve um objetivo: dar a malícia, a maldade até, que faltava ao Cruzeiro para ganhar a Libertadores. E Jair, neste dia importante para o Cruzeiro, está de fora. Expulso no jogo anterior, em Buenos Aires, juntamente com Perfumo, ele cumpre a suspensão automática. Mas não perdeu a confiança.

“Vamos ganhar deles. Vamos ganhar porque somos melhores. E, aqui em Santiago, não precisamos jogar mais que jogamos lá em Buenos Aires.”

Em Belo Horizonte, no primeiro jogo, o Cruzeiro goleou: 4 a 1. No segundo, em Buenos Aires, dois erros do juiz deram a vitória ao River: 2 a 1. A decisão, em campo neutro, é no Chile, no Estádio Nacional de Santiago. A torcida tende mais para os brasileiros – é um modo de opor-se à excessiva gritaria, ao excesso de autoconfiança dos quase 10 mil argentinos que invadiram a cidade. Envolveram-se em bandeiras argentinas ou do River, espalham-se pelas ruas, espantam o frio com sucessivos tragos de vinho. E cantam incansáveis:

Os poucos cruzeirenses que conseguiram chegar a Santiago rodam pelas ruas, metem-se a conhecer a cidade, reconhecíveis apenas pelas roupas coloridas. À noite, vão para o estádio, mas poucos levam bandeiras.

Ou marcavam Nelinho ou aguentavam a bomba | Foto: Célio Apolinário

Ou marcavam Nelinho ou aguentavam a bomba | Foto: Célio Apolinário

“Vamos, vamos, Argentina
Vamos, vamos a ganar
Esta barra quilombera
No te deja,
No te deja de alentar”

Começa o jogo, descobre-se a ajuda da torcida chilena, os cruzeirenses se multiplicam. Logo, vão sofrer, vão descobrir que Jairzinho faz muita falta ao ataque.

“Não tem nada, não. O Palha vai dar um jeito nesses caras.”

É Jairzinho quem fala, colocado ao alambrado. Em seu rosto, se pode ler cada jogada, cada tentativa, cada drama de Palhinha em sua luta contra um beque de quase dois metros de altura, que o derruba em cada disputa de bola. A solução se começar a deslocar-se para as pontas, na tentativa de abrir espaços para Zé Carlos e Ronaldo, que estão vindo de trás.

O River, com uma defesa nervosa, joga no contra-ataque. Mas encontra um Cruzeiro firme, cada jogador guarda sua posição – bem do jeito que Zezé Moreira quer. Então, vai ser questão de tempo, de espera pela chance. Ela vai aparecer, ninguém tem dúvida.

Os argentinos vêem mais uma vez que o perigo se chama Joãozinho, que faz o que quer com Comelles, e ainda atrai mais um ou dois marcadores. E a torcida chilena, que há muito não via um ponta tão bom de bola, tão rápido, tão esperto, vai gostando do jogo, está percebendo que, pelo caminho da simpatia, está, ao mesmo tempo, apoiando o melhor time, um time cuja categoria até o River aprendera a respeitar.

Mas é só categoria? Nada disso. Agora- e isso o River ainda não conhecia – está valendo tudo: quando não é na classe, é na raça.

Vai sair o primeiro gol. Um gol que é bem brasileiro, que é bem argentino. Eduardo mostra a Urquiza o que é um rabo-de-vaca – e cruza para Palhinha que espera na marca de pênalti. No puro reflexo, Urquiza corta o cruzamento com a mão, dentro da área.

Joãzinho infernal | Fotos: Célio Apolinário

Joãzinho infernal | Fotos: Célio Apolinário

Pênalti – e entra o estilo portenho. Aos gritos, Merlo e Oscar Más reclamam. Transfiguram-se, fazem o ar da honestidade ofendida, dão peitadas no juiz. Mas não tem nada. Nelinho já vai ajeitando a bola, já corre para ela e manda a sua bomba, no canto direito.

Cruzeiro 1 a 0, aos 24 do primeiro tempo. Agora, se o River for a sério em busca do empate, deixará mais livres o endiabrado Joãozinho, o oportunista Palhinha, o raçudo Ronaldo.

Palhinha é outro jogador. Neste jogo, ele se completa, chega à perfeição. A raça, a presença de sempre – mas uma novidade: a paciência, a espera. Passa por Lonardi, o grandalhão, e é derrubado. O joelho está vermelho das pancadas, o uniforme sujo de tantas quedas. Mas não perde a cabeça, como já aconteceu tantas vezes, em tantas decisões.

Mas não é só Palhinha. É o Cruzeiro inteiro que dá uma lição de como jogar uma decisão.

Seu Zezé, no banco, é a personificação de um contraste: o corpo imóvel, as rugas imobilizando aquela máscara de sofrida paciência, mas os olhos vivos, inquietos. Ele havia dado, menos que uma ordem, um conselho a Ronaldo (“Não se prenda tanto à ponta, tente chegar um pouquinho mais para o meio”). Agora, em silêncio, ele vê que Ronaldo, ele vê que Ronaldo se chega mais a Palhinha – e, aos 10 minutos, avança pela meia-esquerda, tira Comelles da posição e, ao chegar perto da área, marcando por Ártico e combatido pelas costas por Merlo, rola para Eduardo, que se infiltra pela direita.Com 1 a 0 e um ambiente cada vez mais tenso, começa o segundo tempo. Tudo como antes. No meio, o revezamento, as constantes deslocações de Eduardo, as avançadas de Zé Carlos. Na área do River, Palhinha, sozinho, lutando com os gigantes Lonardi e Ártico. E o River desesperado, buscando o empate. E não há dúvida: se os argentinos chegarem a marcar, vai começar o grande festival da catimba.

O chute sai certeiro, forte, de primeira. Landaburu voa para a direita, mas a bola passa longe de seu alcance, fica balançando a rede lá no alto. E o time todo do Cruzeiro se junta num abraço, festejando o desespero argentino.

Parece que o River está liquidado. Mas não. A correria, a gana, a busca do gol não cessa. O Cruzeiro acalmasse, o River vem com raiva. E é com raiva que Luque entra pela área, tentando limpar a barra no peito. À sua frente, Morais – e Luque é derrubado. Pênalti, aos 13 do segundo. O baixinho Oscar Pinino Más, pouco fôlego, bastante classe, notável malícia, coloca a bola, mandando Raul para um canto e chutando em outro. Marca e corre para buscar a bola, com pressa, na gana. Mas é logo substituído. Sai desgostoso, os companheiros dão toda a impressão de abatimento.

Mas essa impressão dura pouco. Lá está, novamente, o ataque do River, forçando, confrontando sua fúria com a calma, que começa a ser enervante, do Cruzeiro. Do lado brasileiro, é fora do campo que as coisas começam a se modificar. Do alambrado, vêm os gritos de Jairzinho:

Foto: Célio Apolinário

Foto: Célio Apolinário

“Vamos, gente. Pau neles!”

Do banco, vêm os gritos de um Zezé que se transforma, que agora não aconselha, ordena:

“Cuidado com as pontas.”

O Cruzeiro começa a desconfiar do juiz chileno. Alberto Martínez chama a atenção dos brasileiros, com vigor, e não fala nada com os argentinos. A cada falta, se percebe a diferença. E aos 17 ele marca mais uma, na ponta direita, a uns 10 metros da área. Ao mesmo tempo, mostra cartão amarelo a Darci Menezes. E, enquanto faz a anotação em seu caderninho, Comelles cobra forte para a área, a defesa do Cruzeiro está parada, Urquiza, o outro lateral, entra e manda para a rede.

É o empate. De nada adiantam as reclamações de Piazza, de Raul, dos outros – o juiz não havia autorizado a cobrança.

“Cuidado com as pontas.” Seu Zezé, ainda uma vez, tinha razão. E o gol que confirma sua intuição vai ficar como um nó na garganta de todos os brasileiros que estavam no estádio.

No River, desperta a alegria. No Cruzeiro, se adensa o drama. No meio, come a guerra. Briga-se pela bola, o Cruzeiro, esquecido do toque e da classe, sobe, assume a raiva. A bola só vai sobrar para um argentino depois que um argentino ficar caído. Ninguém quer deixar para depois, para a prorrogação. Quem pega a bola, tenta jogar de primeira. A cada apito do juiz, um berro de Zezé – e o Cruzeiro novamente crescendo, novamente dominando.

Nelinho, por duas vezes, tenta – e quase consegue -, de fora da área, surpreender Landaburu. Aos 39, cobra para fora uma falta de Merlo em Ronaldo.

Mas é aos 42 que virá a sequência de lances capaz de resumir uma partida, de marcar uma diferença, de consagrar um estilo, de fazer da vitória do Cruzeiro uma vitória brasileira.

Batido, sem ninguém na cobertura, Ártico chuta Palhinha por trás. Alberto Martínez apita, anota o nome do argentino – enquanto Nelinho ajeita. É a última chance, o esforço definitivo. Lonardi comanda a barreira, olhando para Landaburu – e nenhum dos argentinos vê quando o moleque Joãozinho, passando à frente de Nelinho, entra na corrida e chuta para as redes.

Os argentinos nem se mexeram, o time todo do Cruzeiro começou a correr atrás de seu ponta, vendo que Martínez já apontava o meio do campo.

Era o gol salvador, o gol da molecagem, “o gol da irresponsabilidade”, como dizia Zezé Moreira.

Sujos, bêbados de alegria, os jogadores se abraçam à Taça Libertadores. No vestiário, Ronaldo, expulso no último minuto de jogo, grita com Jair:

“Ganhamos. Eu sou pé quente.”

Todo ferido, Palhinha desabafava:

“Valeu a pena agüentar aquele grandão me sarrafando o tempo todo”.

Joãozinho, segurando a camisa 5 de Merlo, explica o seu gol:

“Eu vi que o goleiro estava fora da jogada. Se o juiz não mandou cobrar a falta no gol do River, não ia eu esperar que ele mandasse cobrar a nossa. Achei que ninguém esperava que eu cobrasse. E não esperava mesmo.”

E então, na malandragem final, na categoria bem brasileira, finalmente o Cruzeiro ganhou o tão sonhado título: campeão da Taça Libertadores da América. Uma festa só, que Belo Horizonte comemorou até o sol nascer. Uma festa que, além do Santos de Pelé, só o Cruzeiro conseguiu fazer no País do Futebol.


Luciana Bois

★★★★ Uma maria que possui a estranha mania de ter fé na vida. ;D