Cruzeiro, o time pressionado por whatsapp, facebook e twitter

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Olá amigos, tudo certo?

Hoje eu vi uma entrevista de meia hora que o Thiago Scuro deu para a sessão de esportes da TVeja, a TV da Veja, como você provavelmente conseguiu adivinhar. Eu nem sabia que a Veja tinha uma TV, e não sabia que tinha um nome tão legal como TVeja, e muito menos um programa de esportes. Quando entrei no site imaginei que seria só uma página falando mal de todas as vezes que o Lula jogou futebol, mas infelizmente não era isso. É um programa de esportes mesmo. E foi uma entrevista bacana.

E como já havia escrito anteriormente aqui no blog, deu pra perceber que o Cruzeiro está agindo com pouco profissionalismo na hora de fazer algumas decisões. E agora ficou bem escancarado, com algumas declarações bem interessantes que, pra mim, encaixam direitinho com a personalidade de nossos diretores e presidente. Ele começa dizendo:

Os clubes ainda tem uma estrutura de gestão politizada. Não são em geral pessoas que se prepararam para administrar um clube, mas elas são eleitas para presidente, por várias razões, e essas pessoas em geral tem um vínculo emocional muito forte com os clubes. Acho que a emoção faz com que as decisões se desequilibrem no decorrer do caminho, por mais que você tenha planejado, na hora que a bola começa a rolar e de repente os resultados não vem, isso condiciona muito o comportamento da gestão do clube.

Isso é claro, dá pra ver a todo momento em tudo quanto é clube. Não é exclusividade do Cruzeiro. E é por isso que o futebol brasileiro está essa bagunça. Os dirigentes dos clubes só usam a emoção para decidirem sobre o futuro de técnico, jogadores, e acabam, na maioria das vezes, impactando o clube negativamente. Muita mudança, e ainda mal pensada, de cabeça quente, não ajuda o clube a ter a estabilidade necessária para brigar por títulos, ou pelo menos posições melhores nos campeonatos que disputa.

Mas ele não para por aí, tem muito mais, e muita coisa específica. Depois de uma pergunta de um dos entrevistadores, ele comentou sobre a diferença de pressão do Red Bull para o Cruzeiro:

(No Red Bull Brasil) É mais fácil você conseguir seguir o plano estabelecido antes da bola rolar. (No Cruzeiro) Eu tive a oportunidade de viver um ano bastante tumultuado dentro de campo, a gente teve bastante dificuldade de resultado, troca de treinadores. (…) E essa pressão externa faz com que a decisão se desequilibre um pouco.

Até aí tudo bem, tudo certo (na verdade tudo errado, né), mas nós sabemos que os dirigentes são assim mesmo e vai ser bem complicado de mudar. Imprensa, torcida, se tiver muita gente pressionando, eles vão tentar responder de alguma forma, e normalmente, essa forma escolhida é na paixão, no calor do momento, e é prejudicial ao clube no médio e/ou longo prazo. Mas o que me acertou em cheio foi o que ele disse à seguir:

Nos momentos bons isso gira a favor, e aí as pessoas que estão buscando popularidade ou que a vaidade é um atributo forte acabam se perdendo um pouquinho nesse processo.

PAM PAM PAM PAM PAM, tocou o sininho aqui, frase 100% compatível com nosso grande diretor tuitero hashtag. Não sei sobre vocês, mas eu ri bastante nessa hora, devo admitir. E ele completa:

E principalmente quando o resultado não vem a pressão de torcida e imprensa afeta demais o comportamento dos clubes.

Outra frase que é 100% compatível com o modo do Cruzeiro 2015/16 operar. É só lembrar a maluquice que foi a gestão do clube pós libertadores 2015. Demissão do Marcelo Oliveira, contratação do Luxemburgo, demissão do Luxemburgo, contratação do Mano Menezes, ida do Mano para a China, efetivação do Deivid, demissão do Deivid, contratação do Paulo Bento, demissão do Paulo Bento e contratação do Mano Menezes. Cinco trocas de técnico em dois anos. E duas temporadas lutando contra o rebaixamento. E isso tudo logo após ficar dois anos com o mesmo treinador e ganhar dois brasileiros seguidos.

Mas Thiago consegue ser um pouquinho mais específico, calma que está chegando. Quando o entrevistador pergunta sobre como são tratados os problemas de um clube, ele diz:

Você trata o problema que as pessoas de fora enxergam e nem sempre o problema que de fato existe. Em muitos momentos uma equipe não performar em campo não está atrelado à qualidade do treinador ou ao trabalho dele, pode estar atrelado a muitos outros fatores. E se você não tem ali dentro um especialista da parte técnica com autonomia para conduzir esse processo a decisão vai mais para um campo político do que técnico. ‘Se a pressão externa entende que trocar o treinador é a medida para acalmar o ambiente eu vou trocar o treinador’. É a solução que a pressão externa te proporciona.

Isso foi muito o caso do Cruzeiro em 2016. Muita pressão infundada para trocar treinador toda hora. E para quem acha que torcida e imprensa não influenciam tanto, é melhor mudar de opinião porque isso vem de um cara que estava lá dentro e viu cinco mudanças de técnico em dois anos. Isso que ele está descrevendo é Gilvan, é o que o Cruzeiro faz quando começam a pegar no pé de treinador. Por isso temos que ficar muito espertos com o que lemos e escutamos, principalmente quando tem um esforço muito grande para tumultuar o ambiente. Eu não gosto muito dessas teorias de “imprensa atleticana” e etc, acho que essa maluquice vem muito mais no GENE corneteiro do brasileiro, e pior, vem de gente que não tem qualificação ou qualidade necessária para dar opiniões e influenciar uma torcida assim. Por isso devemos ser mais seletivos e críticos na hora de embarcar nessas confusões.

Mas voltando à entrevista. Agora, pra mim, vem a pior parte. A que mais me dá medo. A que não faz nenhum sentido, mas que vem se mostrando verdadeira há algum tempo. E agora está praticamente confirmada. Thiago diz:

O ego, a vaidade, é do ser humano. Eu tenho a visão de que o diretor tem que aparecer o mínimo possível no dia-a-dia, o trabalho é feito para os jogadores e para o treinador. Mas tem pessoas no futebol que vêem a necessidade de serem bem quistos, de serem adorados, e hoje com redes sociais, o comportamento do torcedor em redes sociais influencia demais algumas pessoas de dentro do clube. ‘Ah, se estão falando mal de mim na rede social eu preciso fazer alguma coisa para mudar esse cenário’.

Sim gente, é isso. Os caras estão olhando pra whatsapp, twitter e facebook na hora de tomar decisão dentro de um clube de futebol. Eu já tinha notado isso no Cruzeiro. Aquele tanto de nota que o clube soltou no ano passado por conta de boato em whatsapp ou polêmica de twitter nos mostrava isso. Estava claro. Alguém estava lendo tweets e discutindo isso seriamente num clube de futebol do tamanho do Cruzeiro. O clube estava respondendo tweets. De jovens de 13, 14 anos. Alguns de 16, 17, 18. Alguns bobos mais velhos como a gente. Mas na maioria, garotos que começaram a acompanhar o clube há poucos anos. Garotos que nem têm a opinião formada sobre a vida ainda. Que só querem reclamar o dia inteiro. Que acham tudo genial, tudo terrível, tudo maravilhoso, tudo péssimo. O pessoal mais extremista e polarizado possível.

E eu não consigo conceber isso. Homens e mulheres de 40, 50, 60 anos, empresários de sucesso, advogados, e tudo mais, sendo afetados por crianças numa rede social. Demitindo treinadores, dispensando e trocando jogadores. É um absurdo. E não me leve a mal, eu adoro o twitter. É uma rede social divertida, boa para passar o tempo, ler notícias, engajar com um pessoal legal, conversar sobre os mais variados assuntos. Mas ninguém ali é especialista. Você não deve ouvir ninguém no twitter. Sobre nada. Em nenhum momento. Nunca. Sério mesmo, não baseie suas decisões de vida no twitter. Não seja o Cruzeiro.

Até amanhã.

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Michael Renzetti

Não sei nada sobre táticas, sobre jogadores, sobre times - bom, na verdade eu acho que não sei nada sobre futebol. Mas eu gosto de opinar.
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