Mas eu vou escrever sim!

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Eu sei que não sou unanimidade, eu sei que muitas vezes minha opinião não é a certa, eu sei que não sou todo mundo, mas não vou parar de falar quando eu quero. Por mais imbecil que você ache e pense “mas que frescura”, a mulher tem MEDO de fazer muita coisa relacionada ao futebol. E isso, irmãozinho, não é culpa dela.

Medo de ir ao estádio, medo de usar a camisa do time, medo de discutir sobre futebol no trabalho por questões culturais. Você conhece mulheres que gostam de ir ao estádio? E sozinhas? Já se perguntaram por que para um homem é tão fácil ir sozinho e pra uma mulher é tão difícil?

Eu vou sozinha, como disse aqui. O assédio talvez seja o maior medo entre todas as mulheres. Inclusive após escrever o texto na semana passada, fui questionada por uma justamente por isso, pois ela disse que o que resumiria meu texto era “tenha sorte”. Então essa conversa toda pelo “Mídia Day”, o qual convidou apenas homens neste sábado, foi apenas mais um dia normal.

O futebol não nos convida a participar, a não ser no Dia Internacional da Mulher. Eu conheço várias mulheres que um dia gostaram muito ou que gostam muito de futebol, mas não têm vontade nenhuma de frequentar estádio e usa camisa só quando alguém presenteia.

A minha mãe ia ao Mineirão a pé com as minhas tias. Hoje ela tem medo que eu vá sozinha ao estádio, mesmo de carro, carona, ônibus ou metrô. Por mais que eu fale que não tenho medo ou que não têm problema, minha mãe não acredita em mim. Assim como muitas mulheres que estão lendo isso aqui. E por que ela pensa diferente hoje em dia?

Não é frescura, minha gente. Isso é a consequência cultural*. A violência está nas ruas para todos os sexos, mas a mulher tem que aguentar mais ainda. Além do assalto, roubo e esses crimes de bens materiais, temos ainda o alto número de ataques psicológicos e sexuais, inclusive no ambiente do futebol.

Ter que escrever minha experiência sobre ir sozinha ao estádio de futebol para encorajar que mais mulheres façam o mesmo já é um sinal que não é apenas “cresça e apareça”. Você não precisa escrever um texto falando pra um homem ir sozinho – ao observar a necessidade do texto já se sabe a diferença.

Temos que aprender a fazer a pergunta certa. Antes de pensar que isso é vitimização, tem que observar os fatos que gritam na nossa cara. Por que o estádio tem tão pouca mulher sozinha? Por que na internet têm tão pouco blogueiras ou comentaristas? Vocês realmente acreditam que elas não gostem de futebol? Por mais imbecil que seja esse exemplo, vá numa rede social em dia de clássico e veja quantas fazem um comentário, mesmo de brincadeira, sobre futebol. Vocês acreditam que é falta de interesse? Ou falta de oportunidade pra falar?

Achei uma reportagem aqui que diz:

Um estudo da Pluri, consultoria especializada em futebol, realizado em 2011,mostra que apenas 6% das mulheres frequentavam estádios. Já um outro levantamento, da Shophia Mind, consultoria especializada em mulheres, feito em 2010, aponta que 80% das brasileiras torcem por algum time. 

http://globoesporte.globo.com/platb/olharcronicoesportivo/2012/11/29/as-vinte-maiores-torcidas-entre-as-mulheres/

E vale observar a fala do Erich Beting, especialista em marketing esportivo, na mesma reportagem:

[…] os clubes só voltarão suas atenções para as mulheres e seu potencial como consumidoras, quando as outras fontes de receita já estiverem no limite de expansão. “Foi o que aconteceu com o Barcelona, por exemplo”, diz.

Eu queria que mais mulheres falassem mais sobre futebol na internet. Já me envolvi em dois projetos só com mulheres falando do Cruzeiro (Squadra Azzurra de 2010 e o Azul Guerreiras de 2013), mas não foram pra frente por X motivos e observei que um deles era o medo de como poderia ser recebida. Mulher é autocrítica por natureza. Eu revejo meu texto e penso “que bobagem” umas 15 vezes antes de publicar, mas faço igual tocar a campainha e sair correndo. E gostaria muito que mais mulheres fizessem o mesmo.

Sim, nos falta coragem. Mas é a mesma coisa de dizer pra quem sofre de depressão que isso é “bobagem”. Desculpa essa comparação absurda, mas quero dizer que não é fácil pensar ou agir diferente por muitas e muitas razões. Vendo pelo lado de fora, talvez seja fácil demais pra você. Mas pra gente não é.

O clube nos exclui automaticamente da participação do seu dia a dia, mesmo que 15% dos seus sócios sejam mulheres. O futebol, onde chutar igual homem, torcer igual homem, ter raça igual a homem… também nos exclui. Eu estou aqui por insistência, mesmo que para mim seja vendido como produto oficial apenas camisas 1, 2 e de goleiro, enquanto os homens têm até a camisa do treinador de goleiros. Nós não queremos nenhum direito a mais, mas também queríamos nenhum direito a menos.

Eu representei 5% na foto. Somos 15% de sócias. Por que só uma que foi?

Ah… essa ação do Mídia Day não é pioneira. Desde o ano passado o Mineirão também faz a mesma coisa e o Cruzeiro sempre soube disso, com a diferença que desde o princípio convidam mulheres (sim, no plural) e não fazem disso uma propaganda.

Enfim: Não são as mulheres que não são interessadas no futebol. Apenas não somos convidadas na maioria absoluta das vezes.

*Cultura do estupro, segundo a ONU Mulheres, é “o termo usado para abordar as maneiras em que a sociedade culpa as vítimas de assédio sexual e normaliza o comportamento sexual violento dos homens”.

Luciana Bois

Luciana Bois

★★★★ Uma maria que possui a estranha mania de ter fé na vida. ;D
  • Júlio César Ferreira Barbosa

    Luciana, medo de ir com a camisa do time ao estádio de futebol, até eu tenho, aliás em dias de jogos de Cruzeiro e Atlético, não atrevo a sair com a camisa do meu time, o Cruzeiro, nem para ir à padaria. A violência que envolve torcidas é tamanha que da Medo sim. Continue escrevendo só assim certo tabus e ignorâncias que nos assolam podem deixar de existir.

  • Rafaela

    A mulher cruzeirense só existe para a comunicação do Cruzeiro na hora de editar aquela página do Guia do Torcedor sobre fotos do Instagram. Ou no telão, quando estão bem maquiadas e com cabelos arrumados. Não sabia desse Midia Day – e que coisa triste saber que não somos representadas nem nos bastidores.

    Sobre violência, vamos lá pro textão: eu comecei a frequentar Mineirão com homens (meu pai, meu irmão e os amigos deles). Lembro que meu pai só me levava em jogo com pouco público, pois “era muito perigoso” – claro, short não constava no dress code. E eu não insistia, pois também tinha medo de ir ao estádio (não de assédio, mas de arrastão – já quase me fodi em alguns). Tive medo de ir na final da Copa do Brasil, por exemplo.Lembro do meu pai voltando puto (ele é flamenguista hahaha). E me dizendo: “você poderia ter ido no meu lugar e evitar que eu passasse raiva”! E eu: “PORRA, PODERIA TER IDO MESMO”. E daí comecei a ir com eles nos jogos sempre lotados de 2003. De uns anos para cá começou a ser comum ouvir de amigas/colegas e conhecidas cruzeirenses: “Queria muito ir ao Mineirão, mas não tenho com quem ir”, e me ofereci para ser companhia delas. Quando podia comprar 4 ingressos com o cartão de sócio, sempre arrastava umas 3 amigas comigo. Lotamos carro, bebemos no postinho. Às vezes um carro de homens parava do nosso lado no sinal e a gente ouvia: “Mas olha só! Fala se a torcida do Cruzeiro não é a mais bonita do Brasil?”. Foi o único tipo de assédio que eu sofri no Mineirão – nem mão da bunda intencional sofri, mas conheço mulheres que sofreram e deixaram de frequentar estádio por isso. Aos poucos fui perdendo o medo de assédio e de arrastão, mas sem que os riscos são grandes. Mas enfrento. Pego 5106 (antigo 2004) sozinha com certa tranquilidade (sozinha, mas com torcida organizada cantando música popular brasileira). Meu maior medo continua sendo brigas nas arquibancadas – quando dois bêbados começam a bater boca meu coração até dispara. Mas como disse, enfrento. Mesmo por um Cruzeiro e por futebol que lamentavelmente ainda não nos representam.

    ps: cadê o time feminino, Cruzeiro?

    • Luciana Bois

      É isso aí! Eu acho que precisamos divulgar mais as nossas experiências pras mulheres ficarem menos receosas também! Valeu pelo comentário. E time feminino de futebol? Imagina se nem de vôlei, que teoricamente é mais fácil, eles tem coragem de fazer, imagina de futebol? E isso que vôlei dá muito retorno no Brasil.