[CDM] Torça como uma mulher

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Continuando a Coluna das Marias, hoje apresento pra vocês a Rafaela Freitas. Lembra aquele texto que escrevi em Junho? Então olha lá na caixa de comentários o que ela escreveu falando sobre a experiência dela (sério, olhem mesmo!). Por isso eu a convidei pra escrever aqui e, fiquem tranquilos, ela vai escrever mais pra gente! Têm tantas mulheres com opinião FODAS e fortes pra falar sobre futebol! Se você é mais uma entre tantas, pode entrar em contato comigo e não tenha vergonha! Com vocês, a coluna da Rafaela:


Antes de conhecer a origem da expressão “torcedor”, eu costumava invejar os gringos de língua inglesa por poderem chamar de “fans” os seguidores de atletas e equipes esportivas. Etimologicamente não existe melhor definição (vem do latim Fanaticus, uma pessoa submetida quase que cegamente por paixões e sentimentos despertados por um deus). Sempre gostei também de “hinchas”, de nossos vizinhos da América Latina. A origem da palavra é uma simpatia só: vem da antiga prática de inchar (hinchar) os pulmões com ar para encher as bolas das partidas, no início do século 20, num tempo em que ainda não se usava bombas manuais, tampouco elétricas. Por aqui, somos “torcedores”, expressão popularizada na década de 1920, nos primórdios da profissionalização do futebol, e que surgiu a partir do comportamento das mulheres nas arquibancadas, que torciam os seus lenços para aliviar o nervosismo durante as partidas. Pois é… as mulheres!

Jogo de Futebol em São Paulo em 1921 | Arquivo O Globo

Na época, o futebol era um hobby exclusivo das elites brancas. As esposas e filhas dos sócios de clubes de futebol tinham acesso gratuito aos jogos. No entanto, com a popularização do esporte e a rentabilidade com a venda de ingressos, os clubes retiraram a gratuidade. Somado isso à mudança de perfil do público nos estádios – majoritariamente homens de diferentes classes sociais –, as mulheres foram, aos poucos, sendo excluídas do futebol. Além não serem provedoras de seus lares e, consequentemente, não terem como arcar com ingressos, as mulheres não poderiam se atrever a frequentarem um ambiente que se tornara cada vez mais masculino. Para piorar ainda mais a situação da mulher nos estádios, em 1941, um decreto, revogado apenas na década de 1980, proibia a prática do futebol por mulheres por considerar um esporte pouco feminino e violento.

Estar longe dos estádios, mas não necessariamente do futebol. Ao longo da história, as mulheres continuaram torcendo seus lencinhos, roendo suas unhas e acompanhando pelo rádio os jogos dos clubes do coração. O da minha avó foram o Vasco e o Cruzeiro. Conversávamos sobre o Cruzeiro, mas nunca lhe perguntei “por que diabos o Vasco?”. Acho que o motivo era o Tostão. Ela sempre dizia que para Pelé era fácil marcar gol, pois quem fazia o difícil naquela seleção era o Tostão. No interior de Minas, minha mãe ficava atrás de notícias do placar do último jogo do Cruzeiro. No Rio Grande do Norte, minha tia sempre dava um jeitinho de ir escondida com meu pai aos jogos do América-RN.

Felizmente, nasci e me tornei torcedora numa época um pouquinho mais permissiva para nós. Nasci um ano antes da primeira partida oficial da seleção feminina (contra os EUA, em 1986). Lembro-me dos clubes adotando políticas de gratuidade para mulheres ao longo da década de 1990 – políticas hoje questionáveis, mas que em curto prazo, naquele tempo, serviu para nos colocar gradativamente de volta aos estádios. Começávamos a reconquistar aqueles lugares onde, sem querer, batizamos os torcedores. Mas ainda não podíamos ir sozinhas. Nossos pais, tios, irmãos, amigos, maridos e namorados estavam lá para nos proteger daquele mar de testosterona, derramando violência e assédio. De lá para cá, como sabemos, pouca coisa mudou. Basicamente, resolvemos nos arriscar sozinhas ou acompanhadas de outras mulheres nos estádios, começamos a entrar nas conversas sobre os jogos e entender a regra do impedimento.

Cem anos nos separam dos lencinhos torcidos. Parece uma eternidade, mas infelizmente ainda nos vemos numa sociedade emergente quanto à discussão sobre a presença da mulher no futebol. A maioria dos clubes desconversa quando o assunto é time feminino. Não estamos nas diretorias e somos poucas nos departamentos médicos. Poderíamos ser mais no jornalismo esportivo e em blogs de torcidas. Poderíamos ser mais Marias por aqui. Poderíamos ser ainda mais nas arquibancadas. Poderíamos ser mais, mas felizmente já somos o suficiente para começar a problematizar, discutir e nos reunir com outras torcedoras para acabar com qualquer minuto de acréscimo dessa cultura patriarcal que permeia o mundo do futebol. Torcemos e lutemos como mulheres!

PS: Fiquei muito feliz com o convite da Luciana para escrever para a Coluna das Marias e orgulhosa em saber que outras Marias também terão espaço por aqui para contar suas histórias e resenhas sobre o Cruzeiro. Eu mesma tenho algumas e gostaria de compartilhá-las em breve.

Rafaela Freitas

Luciana Bois

★★★★ Uma maria que possui a estranha mania de ter fé na vida. ;D
  • Pâmela

    Parabéns a Luciana por abrir espaço no blog a nós mulheres. A presença feminina dentro e fora das quatros linhas cresceu bastante nos últimos anos, mas sabemos que a caminhada é longa e árdua para conseguirmos, nesse mundo futebolístico, a visibilidade que nos é de direito. E parabéns a Rafaela também pelo post de hoje. Não sabia da origem da palavra ‘torcedor’, e que surpresa boa ler que o significado vem de um comportamento praticado pelas mulheres de décadas passadas… Uma Cerveja por Favor também é cultura, hahaha. Moro no interior de Minas e não frequento o Mineirão, portanto não tenho nenhuma experiência para contar em idas ao estádio. Mas o simples fato de eu ser mulher e torcer para um esporte historicamente masculino são suficientes para o preconceito. Piadinhas sobre não saber regras do jogo são recorrentes, ainda há muito objetificação feminina e muitos clubes não veem as mulheres como consumidoras (é dificílimo encontrar blusas do Cruzeiro do meu tamanho). Porém como a Rafaela mesma disse, hoje vivemos em uma época muito mais tolerante. É pouco? É muito pouco ainda! Mas são atitudes como essa da Luciana que nos dá alento e força para prosseguir lutando pelo espaço que merecemos, não só no futebol como também na sociedade. Sigamos unidas! E torçamos todos como uma mulher!

    • Luciana Bois

      Obrigada Pâmela! Você pode não ter muita experiência pra falar de como é ir ao estádio, mas você tem a experiência de como é complicado torcer estando tão longe. Esse ano eu tô aprendendo isso e como é árduo! Eu inclusive estou querendo escrever sobre isso. Morar num outro país e torcer pelo meu time, um dear white people problem….. Agora imagino vivendo no interior a vida toda e torcendo pra um time tão distante. Inclusive se você quiser falar da sua experiência de tão longe, pode contar aqui! Só me procurar! E continuaremos aqui na torcida =)

    • Rafaela

      Ei, Pâmela! Fico muito feliz em saber que gostou do texto! 🙂
      Como bem disse a Luciana, manda para a gente o seu relato de como é ser torcedora no interior, ainda mais da influência de times de outros estados em algumas regiões de Minas Gerais (não sei se é o caso da sua cidade).

      E vamos continuar torcendo e lutando por mais visibilidade!

      Beijos

  • Júlio César Ferreira Barbosa

    Parabéns! Luciana, sou fã de seus textos, já disse que parei de acessar este blog quando vi que você não estava escrevendo, estou conçado de opinião de homens. Parabéns por abrir espaço a outras, que como você escrevem tão bem, como este texto da Rafaela. Vocês fazem ter orgulho à maneira que nosso arquirrival nos chamam: “As Marias” que pode até parecer depreciativo, mas não é. Viva! As Marias, as Joanas, as Anas, em especia a Dona Celina, minha mãe Cruzeirense que enche-me de orgulho.

    • Rafaela

      Obrigada, Júlio! E um beijo para a Dona Celina!