Uma semi-final e seus modinhas

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Depois de 6 meses, assim como eu, acho que muita gente escolheu esse jogo para ir. Foi um jogo a parte assim como todos no mata-mata são. Um segundo muda tudo? Então temos que prestar atenção até no segundo que respiramos. As músicas foram desencontradas, ninguém conseguia sentar, não sabíamos para quem concentrar o grito até que veio o gol…

Todo meu cansaço dos 8000 km viajados naquelas últimas 22 horas já tinha ido embora e com o gol senti mais energia ainda para poder gritar. Um grito que por 6 meses estava assistindo aos jogos escondida no meu quarto porque não podia atrapalhar os donos das casas, ou xingar em português não fazia efeito, ou reclamar da internet e esperar só um pouquinho pra ela voltar não fazia sentido me mostrar tão impaciente.

Ser modinha e escolher apenas um jogo para ir ao campo depois de 6 meses é difícil demais. Assim como eu, imagino quantos por N razões só puderam ir a esse jogo ou escolheram ir apenas para esse jogo. Pode ser por distância, por dinheiro, por compromissos ou por escolha. Na hora do gol, estávamos juntamente loucos, extasiados e eu, com minha cabeça doida, ficava pensando: por esses segundos que vale a pena o futebol. Fiz uma fezinha pra que, mesmo que o Cruzeiro fosse eliminado, eu já estava tão feliz por estar ali naquele momento que a torcida cantava e enlouquecia no seu ponto mais alto de êxtase.

Foto: Douglas Magno

O segundo tempo foi uma coisa insana. A torcida estava completamente insana. O quanto mais alto poderíamos gritar, era gritado. As músicas ficaram mais desencontradas ainda porque era importante gritar. A velocidade do som com quase 1 segundo de atraso de um canto pro outro no Mineirão foi claramente ignorado. A encarada do Raniel foi comemorada assim como um gol. Qualquer desarme era motivo.

Na hora dos pênaltis eu fui mais forte que da última vez. Contra o São Paulo eu só conseguia chorar entre o apito final do jogo e o inicio da disputa de pênaltis. Contra o Grêmio, eu me sentei e fiquei preocupada com o coração do meu pai que estava lá comigo, enquanto minha mãe estava lá comentando sobre reações de todo mundo e meu irmão estava um pouco louco sem saber o que fazer. A recepção da minha família depois de 6 meses foi ali no Mineirão mesmo na situação mais louca possível.

Eu tremia tanto assim como uma bela maria. Meu pai disse que não aguentaria ficar ali e foi pra dentro dos corredores do Mineirão. Já fazia um ano que ele não ía ao campo porque reclamava que não conseguia ver direito e, pelo tanto que ele fica nervoso, tínhamos que precaver a situação cardíaca dele. Meu pai é modinha por questões de saúde mesmo.

Quando um batedor andava até a marca da cal e o goleiro se ajeitava no gol, transformava aqueles segundos em teorias. Fitava o olhar no Fábio lembrando pênaltis que ele pegou e grandes defesas só pra me convencer que ele podia. Ou fixava o olhar no batedor adversário prevendo que ele iria errar por estar nervoso ou outras 1001 teorias que a consequência era a bola pra fora. Ou quando o batedor era do Cruzeiro, me convencia mentalmente que seria a melhor batida da história. E eu não conseguia ficar em pé. Assisti aos pênaltis sentada olhando entre pernas, braços e cabeças a direção do gol.

Assim como eu, tinha mais uns 50 e tantos mil com mesmas teorias e desesperos no mesmo segundo. Chorando, gritando, sorrindo, mas todos desesperando. Não importava quantos jogos tinham ido ao ano, a raça, a idade, a saúde. Todos estavam desesperadamente iguais transformando o futebol no significado mais puro do porque gostamos de 22 homens correndo atrás de uma bola.

Eu fui, meu pai foi e outros 50 mil foram. E valeu a pena.

Desculpa o texto tardio, um pouco sem nexo e fora da ordem. Ainda estou me recuperando.

Foto: Agência i7

Luciana Bois

Luciana Bois

★★★★ Uma maria que possui a estranha mania de ter fé na vida. ;D
  • Rafaela

    Bem-vinda, Luciana! E trouxe sorte pra gente. Fui torcedora modinha por muito tempo, mas hoje sou a famigerada torcedora de verdade, pois fiz cartão de sócio e tento estar presente na maioria dos jogos (afinal, é esse o critério para ser torcedor de verdade hoje em dia, não é mesmo?). Mas quanto ao jogo: eu nunca tenho estrutura emocional para disputa de pênaltis. Vejo as cobranças dos adversários de pé, mas me sento, abaixo a cabeça e choro copiosamente durante as nossas… Quando eu ouvi os palavrões dos torcedores do meu lado após as cobranças de Robinho e Murilo, ficou claro que não eram meus olhos que estavam zicando. Me levantei dali para não me sentar mais. Odeio quando o Cruzeiro disputa nos pênaltis, mas como é gostosa a sensação quando a gente ganha dessa forma… E sensação boa também é a de ver que o Cruzeiro sendo eficiente quando precisava ser. Mano escalou bem e fez boas as substituições. O time jogou com raça (e contou com a sorte, claro!) e não recuou após o gol. Não tomamos grandes sustos na etapa final!!!!! O Cruzeiro e sua torcida se agigantaram, como não poderia de ser diferente. Estão deixando a gente sonhar MESMO!