[CDM] A camisa branca do Cruzeiro (ou uma crônica sobre minhas superstições)

Tempo de leitura: 4 minutos

O empate amargo contra o Santos, no último domingo, acabou com a curta sequência do Cruzeiro vestindo a histórica camisa branca, que tanto nos trouxe boa sorte nos anos 1990. De uns anos para cá – mais precisamente desde aquele dermedibre 2011 –, o clube, quando mandante, passou a adotar o segundo uniforme como medida desesperada em momentos difíceis. Se ela nos impediu de cair pra série B ou nos classificou para a final da Copa do Brasil, eu não sei, mas seria muita ousadia da minha parte ignorar as superstições – as dos outros e as minhas.

Foto: Agência i7

Quando assisti “O lado bom da vida” saí do cinema me lembrando de todas as derrotas do Cruzeiro das quais me sentia corresponsável.  Para quem não viu o filme ou não leu o livro de Matthew Quick, que deu origem ao roteiro, eu contextualizo rapidinho: Pat (Bradley Cooper) recebeu alta de um hospital psiquiátrico e enquanto tentava ajeitar a vida, voltou para a casa dos pais. A família dele era torcedora fanática do Philadelphia Eagles, time de futebol americano que disputa a divisão leste da NFL. Pois bem… Numa cena, o pai (Robert DeNiro), se preparava para assistir ao jogo na sala e dobrando meticulosamente um lenço verde – cor dos Eagles – e alinhando numa mesinha três controles-remoto mais à direita, como se os objetos dobrados ou alinhados incorretamente causassem um efeito borboleta, mudando o curso natural do jogo.

A plateia no cinema riu. Eu fiquei desconfortável. Aquilo não teve graça. Principalmente para quem já fora vítima do efeito borboleta. Era 13 de dezembro de 1998, primeiro dos três jogos da final do Campeonato Brasileiro. O Cruzeiro ganhava de 2×0, no Mineirão. Avistei um chinelo virado no chão da sala. Desvirei-o. Salvei a vida da minha mãe (outra superstição!), mas baguncei o universo: em cinco minutos, o Corinthians arrancava o empate.

Com o retorno de Pat ao convívio familiar, os Eagles ganham um novo reforço. Ou pelo menos é isso que o pai acredita, já que quando assistem aos jogos juntos, o time da águia raramente perde. Fui ao Mineirão com meu irmão em todos os jogos da fase de grupos e na partida de volta das oitavas da Libertadores de 2009. Não fomos aos jogos contra o São Paulo (quartas) e Grêmio (semi), mas assistimos juntos pela TV. Na final, quis meu irmão mudar o modus operandi e assistir ao jogo sabe-se lá onde. Por muitos dias, senti mais raiva dele do que de Gerson Magrão, Wagner ou Kleber, por exemplo. Como ele ousou mudar o nosso ritual?

Como tragédia pouca é bobagem, a camisa que eu vestia na noite da final fora amaldiçoada – nunca mais vi uma vitória do Cruzeiro com ela em meu corpo. O que fazer? Jogar fora, queimar? Não tive coragem. Deixei-a esquecida na gaveta, com a esperança de que desaparecesse sozinha para uma terceira dimensão – junto com tampas de caneta BIC, brinquinhos de boneca Barbie e isqueiros. Mas ela continuou na gaveta enquanto o Cruzeiro era garfado no Brasileirão de 2010, namorava o rebaixamento em 2011 e fazia figuração em todas as competições de 2012, ano em que a camisa acabou indo pra sacola de roupas para doações de Natal. Preciso lembrar o que aconteceu em 2013, após o fim do ciclo da camisa do mal?

Em “O lado bom da vida”, o irmão de Pat também era supersticioso. A van que o levava com os amigos ao estádio precisava estar estacionada sempre no mesmo lugar, caso contrár

io… Já sabem! Não, não tenho nenhuma história supersticiosa envolvendo meios de transporte. Mas me lembrei aleatoriamente de uma sequência de vitórias que emplaquei no Mineirão certa vez. Ao mesmo tempo, um amigo perdia todas. Fomos juntos um dia para medir forças. Eu, Jedi. Ele, Sith. O jogo ficou 0x0.

Uns são guiados por Deus, Jeová, Ewa, Exu ou Iansã. Outros contam com aquela camisa fedida da sorte ou no sol em capricórnio e Marte em escorpião. Acaba que todo mundo sabe que o que ganha jogo é bola na rede, é esquema tático inteligente, é raça…  Mas cá entre nós: desde quando futebol é 100% razão? Nunca tive uma superstição fixa, mas às vezes cismo que certas coisas podem ter ajudado e acabo reproduzindo-as, transformando-as em ritual. Nem sempre dá certo, assim como a camisa branca do Cruzeiro. Mas no aperto, não me custa nada fazer a minha parte de forma irracional e tentar.

No fundo eu sei que não tenho culpa pelos títulos perdidos, desclassificações dolorosas ou temporadas ridículas do Cruzeiro, mas mesmo assim, “ desculpa qualquer coisa”.

Foto: Agência i7

PS1: O filme “O lado bom da vida” está no Netflix. Assistam! Resolvi ler o livro, que obviamente é muito mais legal que a adaptação cinematográfica e destaca melhor a relação da família de Pat com os Eagles e como o esporte foi capaz de conectar pai e filhos.

PS2: Você já se submeteu a alguma superstição? Conta pra gente aqui nos comentários.

Rafaela Freitas


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Luciana Bois

★★★★ Uma maria que possui a estranha mania de ter fé na vida. ;D
  • 1998 e 2009… foi VOCÊ!!!! Sabia que tinha que ter uma explicação lógica e racional para esses dois eventos trágicos!!

    😉

    A única superstição que eu tive era não mudar de lugar no Mineirão. Era muito comum, no velho Mineirão, as pessoas mudarem de lugar no intervalo. Toda vez que eu mudava de lugar no intervalo, Cruzeiro levava gol.

    Nunca deu em grandes perdas como em 98(!!!!!!!) e 2009(!!!!!!!!), né? >:/

    • Rafaela

      Já pedi desculpas por 1998 e 2009, ok? Tô fazendo de tudo para manter o modus operandi para a final da CdB. Vai dar muito certo desta vez 🙂

  • João Pedro Damasceno

    Tenho uma história parecida sobre 2009… Durante toda a competição fazia o mesmo ritual: assistia aos jogos na sala, sozinho, munido apenas da minha camisa que ganhei da minha Avó, uma réplica da que o clube usava naquele ano.

    Quando o Cruzeiro chegou as finais e os jogos seriam televisionados para todo o Brasil, resolvi mudar de local, fui acompanhar no quarto da minha Avó fazendo-o companhia, muito pela TV ser parabólica e possuir um melhor sinal e imagem do que a TV comum. Já um tio que morava conosco, fez também uma mudança, deixou de assistir no seu quarto e foi justamente pra sala.

    Uma memória que guardo do meu falecido Tio é que quando o Cruzeiro abriu o placar com Henrique ele chegou da porta do quarto e disse:
    ” -Agora vai abrir a porteira!”

    O fato é que desde aquele jogo minha avó carregou por anos na minha cabeça a fama de ser pé fria. Coincidência ou não, após aquele fatídico dia, preciso confessar que evitava de assistir jogos junto a ela. Como algumas vezes era inevitável, tudo parecia muito mais difícil, o Cruzeiro poderia até vencer, mas era sempre sofrido. Quantas derrotas, quantos empates já nos acréscimos… Ah!

    Mas esse ano resolvi pôr a prova e acabar de vez com essa escrita. Após aquele doloroso empate em 3×3 contra o Palmeiras em São Paulo e com 1 televisão estragada na sala, não tinha outra escolha a não ser encarar novamente uma decisão de mata-mata ao seu lado no quarto.

    Quando Keno abriu o placar no Mineirão o Déja-vu foi inevitável, estava mais do que predestinado. Mas mal sabia eu que o melhor ainda estava por vir, sendo o final da história muito melhor do que poderia imaginar e pude então chegar a conclusão que a culpa por 2009 foi única e exclusivamente minha.

    No dia 27, equipado com uma camisa branca invicta na temporada e fadada a vencer (vitória sobre o Grêmio por 1×0 e empate contra o Flamengo por 1×1), estaremos no Mineirão nessa batalha em busca do Penta.
    Detalhe: Essa camisa poderia ter estreado na derrota por 1×0 em Porto Alegre, mas naquela tarde deixei derramar um pouco de ketchup por descuido e fui as pressas lavá-la. Coincidência? Saberemos rs